“Autobiography” | Morrissey

“Autobiography” | Morrissey

Só por ser paranóico não quer dizer que não andem atrás de mim

Felizmente Steven Patrick Morrissey não é uma boa pessoa. Também não está preocupado com o que os outros pensam dele. “Autobiography” (Penguin Books, 2013) não é mais uma biografia sobre um músico esforçado e as dificuldades que teve de ultrapassar para atingir o sucesso, tantas vezes retratadas até à regurgitação pela indústria de Hollywood-com-final-feliz mas, para quem conhece Morrissey e sabe quem foram os Smiths, não haverá qualquer surpresa.

Morrissey teve sucesso apesar das outras pessoas, e nunca por causa delas. E, na generalidade, as outras pessoas são a encarnação da estupidez, em parte porque de facto as pessoas são estúpidas e, em parte porque ele é – e assume-se como – um desajustado. Se o que o leitor procura na biografia de Morrissey são contos de um anjinho-moralista-endinheirado-numa-cruzada-para-salvar-o-mundo, como Bono Vox, esta será uma grande desilusão, ou não fosse o próprio a fazer o chamamento do armagedeão em “Everyday is like Sunday”.

Claro que a eterna questão da homossexualidade, embora abordada sub-repticiamente, está presente no livro. Morrissey é ou não gay? E isso importará tanto como saber se os seus milhares de fãs do sexo masculino que o ouvem, seguem e escutam o adoram porque se sentem profundamente atraídos por ele? Não é parte do fascínio, exercido por Moz, iconográfico? Morrissey é atraente, tem consciência disso, e faz uso desse poder. Isso está patente no seu jeito efeminado de adolescente, na flor que coloca delicadamente no cabelo, no seu tronco esguio e bem torneado (de outros tempos), nas suas letras, misto de apocalipse e sensualidade e, acima de tudo, no modo de estar: em palco, e fora dele. Como o próprio veio confirmar recentemente, ele apaixona-se por pessoas, não por membros de um determinado sexo.

E os Smiths? Os Smiths foram, e ainda são a banda da vida de muito boa gente por esse universo fora, desde o punk mais punk até ao beto mais beto. Os Smiths são a cola que, acima de tudo, une quem gosta de música. Morrissey deixa bem claro que a banda era composta por duas pessoas, o próprio e Johnny Marr, que não sobrevive incólume às memórias do ex-Smith. Todos os restantes personagens eram meras figuras passageiras. E, sem legar demasiada importância, o fim da banda é retratado como a mesma leviandade com que o início também o é.

“Autobiography” são apenas as memórias de um homem que claramente conseguiu fazer as pazes consigo próprio, e cuja audácia tanto lhe permite apontar, sem misericórdia, o dedo a quem considera ser culpado, como assumir friamente os seus próprios falhanços. Fará isso de Morrissey um homem cruel? Apenas para aqueles que procuram um lugar no céu.

Morissey, o vegetariano fundamentalista, o fascista, racista, gay, ingrato e arrogante, sobreviveu a tantas mortes, roubos e conspirações ao longo da sua vida, que, quer para os seus devotos como para os seus detractores, já assegurou a imortalidade. Ou não existisse uma luz que jamais se extingue.



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