Bruno Vieira Amaral

Bruno Vieira Amaral

«Eu entendo a felicidade a uma escala humana e não a uma pretensa escala divina, de beatitude perene. Nesse sentido, acho que é possível encontrar a felicidade – essa felicidade humana – em qualquer lugar. Mas é preciso muito treino para aprendermos a ignorar o que nos faz infelizes.»

Depois da edição de “Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa”, livro que fala de personagens nascidas no mundo da ficção que, por vezes, são bem mais reais que nós próprios, Bruno Vieira Amaral estreou-se em grande no mundo dos romances com “As Primeiras Coisas”, uma enciclopédia de fatalidades que merece toda a atenção. Visitámos o Bairro Amélia e estivemos à conversa com o autor, na esperança de, como Fion, permanecermos para sempre poetas.

Bruno Vieira Amaral

Dá a sensação que o Bairro Amélia está, todo ele, imerso numa profunda tragédia, apesar da vida que pulsa em todas as ruas, cafés e personagens. Mesmo que tenha conseguido lidar com o regresso de uma forma catártica, Bruno parece ficar aprisionado pelos fantasmas, sonhando com um reencontro feliz após a morte. É possível encontrar a felicidade num bairro assim ou é preciso virar-lhe costas?

Eu entendo a felicidade a uma escala humana e não a uma pretensa escala divina, de beatitude perene. Nesse sentido, acho que é possível encontrar a felicidade – essa felicidade humana – em qualquer lugar. Mas é preciso muito treino para aprendermos a ignorar o que nos faz infelizes.

O país corre o risco de se tornar, por inteiro, num Bairro Amélia – olhando apenas para o lado trágico e fatalista?

Não faço esse tipo de extrapolações, até porque não vejo o Bairro Amélia como metonímia do país. E no Bairro Amélia, em qualquer bairro e na vida, há muito para lá do lado trágico e fatalista. Acontece que, neste romance, o ângulo é esse. É uma escolha estética – afinal, as famílias felizes etc. – e uma escolha ética – ao olhar para as fraquezas, para as fragilidades, para o sofrimento e ao escrever sobre isso, estou também a falar de uma esperança que é difícil e exigente, uma esperança que não nos é dada mas que tem de ser conquistada. Quando falo de esperança, refiro-me ao equivalente secular da fé.

Pode dizer-se que este romance é, ao mesmo tempo, uma colectânea de contos de corpo inteiro, escritos quase de um fôlego?

Não é uma colectânea de contos porque o conto, enquanto forma, obedece a certas regras em que não pensei, nem sequer para as transgredir. O facto de este não ser um romance com uma estrutura convencional, linear, não transforma os textos que o compõem numa coisa que não são. Analisando os fragmentos, diria até que se aproximam – uma maioria, mas não todos – mais do registo da crónica do que de qualquer outro género.

Todos os militantes de direita são «fascistas dum filho da puta»?

Para a esquerda, quer tenha a coragem de o verbalizar ou não, é mais ou menos isso. Já a direita tem mais dificuldades em inventar um epíteto igualmente simpático que englobe toda a esquerda, que tem esta tendência suicida para a fragmentação levando à criação de um número tão formidável de partidos que alguns militantes até desconhecem o significado das siglas. Mas convém assinalar que essa frase surge no romance num contexto muito específico.

Viver é falhar, como diz o poeta Fion?

Em certa medida, sim. Há qualquer coisa de imbecil na auto-indulgência que, por vezes, acompanha o sucesso. É verdade que também há qualquer coisa de imbecil na auto-comiseração que, por vezes, acompanha o fracasso. Em vez do que diz o Fion, eu diria que até termos consciência de que falhámos em alguma coisa importante não somos completamente humanos.

Já que falamos de poesia, cada português tem mesmo dentro de si um potencial poeta? Será do clima?

Acho que alguém disse que o problema não é o de haver um potencial poeta em cada português, mas o de não se manterem aí. Espero que seja do clima porque isso significaria uma mudança a breve prazo.

“Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa” parece ter sido um tubo de ensaio para esta aventura literária: à ordem cronológica seguiu-se o rigor enciclopédico, agora com um fio condutor geográfico entre todas as personagens. Quando te lembras de ter inventado este romance? Qual foi a semente inicial que te levou a acreditar que tinhas entre mãos um romance?

A ideia de escrever um romance precedeu a do Guia. O momento inaugural do romance – apesar de, na altura, não saber que forma iria ter – foi a composição do retrato de Zeca, que escrevi há quatro anos. Percebi que estava a escrever um romance à medida que fui publicando alguns textos no Circo da Lama.

Como é conciliar a vida de pai, escritor, cronista, blogger e profissional da comunicação?

Obriga a uma certa ginástica e requer muita paciência da minha mulher e dos meus filhos. Mas não me queixo. Tenho uma vida boa.

Viveste, à semelhança do Bruno, num Bairro Amélia?

Sim.

O país está cheio de bairros perdidos como este?

Perdidos aos olhos de quem?

Estas são personagens de carne e osso ou nasceram apenas da tua imaginação? A Literatura imitou a realidade recriando-a ou foi tudo fruto da imaginação?

Essa questão é importante para mim enquanto autor. Para o leitor é irrelevante ou, pelo menos, secundária. Mas posso dizer que, no processo criativo, sou omnívoro. Alimento-me de tudo o que me possa ajudar a construir um universo que depois, aos olhos do leitor, seja plausível e homogéneo, entendido como um todo coerente.

Concordas que este é um bairro triste mas luminoso?

Não é este bairro. É a vida que é assim.

Que nos reserva o romancista Bruno Vieira Amaral para o futuro? Vais viver dos louros ou há já uma nova ideia a marinar?

Tenho várias ideias. Viver dos louros não é uma delas. Até porque preciso de carne no prato.

 

Foto do autor: Susana Almeida



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