Ana Zanatti

Ana Zanatti

«Penso que atravessamos um período de grande dispersão, demasiada informação, de culto do efémero e total alienação das nossas verdadeiras urgências.» Entrevista com a autora de “E Onde é que Está o Amor?”

Dona de uma das vozes mais bonitas do nosso imaginário, Ana Zanatti volta a colocar a ênfase do seu discurso em formato livro. “E Onde é que Está o Amor?” é um livro de uma simplicidade e pertinência desarmantes, que traz à tona o melhor e o pior de nove pessoas que se reúnem para falar da sua vida, real como convém. A propósito desta edição falámos com a autora sobre a existência, as pessoas, o pecado e descobrimos, afinal, onde está o amor…

Fez a sua estreia no romance de ficção com “Os Sinais do Medo”, regressando agora com “E Onde Está o Amor?”, oito anos depois de “Agradece o Beijo”. Porque este hiato tão grande?

Apenas falta de disponibilidade para me dedicar à escrita de um novo romance que implica bastante tempo físico e disponibilidade interior. Dentro do tempo de que dispunha, fui escrevendo e publicando alguns contos infantis: “O Planeta Adormecido”, “A grande travessia” – que completaram a trilogia de “O Povo Luz e os Homens Sombra” – e “Teodorico e as Mães Cegonhas”; fui também escrevendo poesia, que deverá ser publicada em parte ainda este ano.

“E Onde Está o Amor?” é um romance ficcionado, mas os personagens são bastante reais. Onde se inspirou para fazer nascer estas nove almas atormentadas?

Como em tudo o que escrevo, na vida que me cerca. É lá que encontro inspiração para as personagens dos livros e para as suas histórias. As personagens deste livro não fugiram à regra, estou atenta, oiço, vejo e também me escuto, observo e retiro daí matéria para escrever sobre assuntos que me suscitam reflexão.

No perfil destas personagens a solidão e o receio de comunicar os seus dramas são características comuns entre si. Pensa que a sociedade atual empurra o indivíduo para dentro de si mesmo impedindo a sua exteriorização?

Penso que atravessamos um período de grande dispersão, demasiada informação, de culto do efémero e total alienação das nossas verdadeiras urgências. Um período em que se ignora e deturpa a essência do que nos move, que nos leva a perdermo-nos de nós próprios e dos outros, iludindo-nos com uma comunicação e informação rápida que parece aproximar-nos mas que traz com ela um enorme vazio.

Este livro abre a coleção “Poucas Palavras, Grande Ficção”. Como surgiu o convite de fazer parte deste interessante projeto?

Conheci o Manuel da Fonseca, director e dono da Guerra e Paz, quando escrevi um texto à laia de prefácio para o livro do Daniel Oliveira e, mais tarde, o apresentei a convite dele. Pouco tempo depois, o Manuel da Fonseca convidou-me para participar nesta colecção.

Tornou-se uma figura conhecida através da televisão enquanto atriz e apresentadora, fez teatro e cinema. A que determinada altura da vida sentiu o “bichinho” da escrita? Sabemos que antes dos livros teve experiência enquanto cronista na imprensa…

Sim, tinha escrito para o “Sete”, para a Elle, para a Egoísta e outras revistas e escrevia letras para canções. De resto, escrevia para mim, faço-o desde sempre, e nunca tinha publicado. Um dia, tomei balanço e escrevi o primeiro romance que apresentei à D.Quixote, e foi assim que comecei a publicar.

Em alguns dos seus livros fala de assuntos tabu como, por exemplo, a homossexualidade. Acha que a solidão é também uma espécie de assunto proibido?

É difícil, para quem sofre de solidão, falar disso aos outros. É difícil, no geral, falarmos de nós, do que sentimos a um nível mais profundo. Por vezes nem nós próprios temos o hábito de mergulhar dentro de nós, de nos auscultarmos e a vida hoje, convida-nos a tudo menos a reflectir. Corremos o dia todo, chegamos esgotados ao fim do dia e há pouco espaço para nos escutarmos a nós ou escutarmos os amigos. Iludimos a nossa solidão com mil afazeres e programas, com mil distracções e alienações, mas há sempre um dia em que o encontro connosco se impõe e, quanto mais tarde ele vem, mais duro se pode tornar.

Numa entrevista disse, em tempos, que “tudo o que dá prazer é pecado”. Mantém essa ideia?

Para mim não, mas segundo os mandamentos da lei de Deus, cujo conteúdo quanto a mim foi deturpado, assim se propaga essa ideia. Somos um país maioritariamente católico em que o prazer, em vez de ser celebrado, é visto com maus olhos.

O que podemos esperar de Ana Zanatti nos próximos tempos? Mais livros, regresso ao teatro, cinema? Que “pecado” gostaria de provar ou voltar a sentir?

Tenho projectos essencialmente de escrita, mas a minha vida é uma surpresa constante e não sei o que posso vir a fazer daqui a um mês. Vou avançando tranquilamente com o que tenho para pôr em prática, lançando as minhas sementes, tentando não me desviar demasiado do meu caminho interior e, o resto logo se verá. Não gosto de compromissos de longo prazo, nem traço linhas rígidas. Às vezes a vida traz-nos boas surpresas e gosto de estar disponível para elas.

Para si, onde está o amor?

Sem qualquer dúvida dentro de mim. De nada serve procurá-lo fora sem o ter primeiro encontrado dentro.

 

Foto por Carlos Ramos



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