Burn Burn Burn regressa à Culturgest no mês da Revolução
Os Possessos revisitam Fahrenheit 451 num espectáculo que alerta para a censura e o apagamento do pensamento crítico.
Catarina Rôlo Salgueiro e Isabel Costa, do colectivo Os Possessos, regressam à Culturgest com Burn Burn Burn, nos dias 23, 24 e 25 de abril de 2026. O espectáculo, inspirado no romance distópico Fahrenheit 451 de Ray Bradbury, interroga o apagamento da História e a aniquilação do pensamento crítico. Numa sociedade cada vez mais polarizada e inflamada, a resistência usa a memória como arma. Os bilhetes custam 15€ e estão à venda na Culturgest e na rede Ticketline.
Fahrenheit 451 como espelho do presente
A escolha de Fahrenheit 451, o clássico de Ray Bradbury publicado em 1953, como ponto de partida para Burn Burn Burn não é acidental. Numa era em que a reescrita e a censura de livros voltam a emergir como práticas concretas em várias partes do mundo, o romance distópico onde os bombeiros queimam livros em vez de apagar incêndios ressoa com uma urgência perturbadora. Os Possessos convocam esta narrativa para o palco não como um exercício nostálgico, mas como um gesto político de resistência.
No espectáculo, um grupo de estranhos reúne-se clandestinamente para participar num clube de leitura. Num mundo em que os livros foram declarados perigosos e banidos, a resistência armou-se com a ferramenta mais invisível e mais poderosa: a memória. Cada membro aprendeu um livro de cor. É a literatura guardada no corpo, transmitida em voz, como último bastião contra o esquecimento.
Catarina Rôlo Salgueiro sublinha que o espectáculo parte de “fenómenos recorrentes e cíclicos da história da Humanidade”. O silêncio, a indiferença e a distracção surgem como cúmplices da censura, tão perigosos quanto os que empunham a tocha.
Os Possessos: uma geração que marca o teatro português
Fundada em 2014, a companhia Os Possessos afirmou-se ao longo de uma década como uma das estruturas mais dinâmicas da nova geração do teatro português. A sua prática assenta em criações autorais, dramaturgias contemporâneas e processos colaborativos, mantendo uma relação activa com o público e um olhar crítico sobre a realidade.
Catarina Rôlo Salgueiro levou Ainda Marianas ao Teatro Nacional D. Maria II, a partir de Novas Cartas Portuguesas. Isabel Costa criou Manifestos Para Depois do Fim do Mundo, apresentado na Culturgest, obra que impulsionou a internacionalização do seu percurso e lhe valeu a nomeação para o Festivals Fund for Emerging Artists da União Europeia.
Em Burn Burn Burn, as duas criadoras juntam-se pela primeira vez numa criação conjunta, reunindo um elenco de oito intérpretes: Beatriz Brás, Catarina Rôlo Salgueiro, Isabel Costa, João Pedro Mamede, João Pedro Vaz, Leonardo Garibaldi, Leonor Buescu e Tomás Alves. A cenarografia é de Joana Subtil, o desenho de luz de Manuel Abrantes e o desenho de som de Miguel Nicolau.
Três noites no Auditório Emílio Rui Vilar
Burn Burn Burn pode ser visto nos dias 23 e 24 de abril, quinta e sexta-feira, às 21 horas, e no dia 25 de abril, sábado, às 19 horas, no Auditório Emílio Rui Vilar da Culturgest, em Lisboa. O espectáculo tem classificação M/12.
Todas as sessões terão legendas em inglês. Nos dias 23 e 24 de abril estão programadas sessões com Audiodescrição e Interpretação em Língua Gestual Portuguesa. O reconhecimento de palco para pessoas com deficiência visual acontece às 20h00 do próprio dia.
Os bilhetes têm o custo de 15€, com descontos disponíveis para diversas categorias, e estão à venda na bilheteira da Culturgest e na rede Ticketline.
Uma pergunta que não tem resposta fácil
O título do espectáculo é uma invocação e uma advertência. Queimar — queimar livros, queimar memórias, queimar identidades — é o acto supremo de uma sociedade que desistiu de pensar. Burn Burn Burn confronta o público com uma pergunta simples e devastadora: de que forma a literatura pode combater as narrativas extremistas que percorrem o mundo em que vivemos?
Num Portugal que comemora o mês da Revolução de Abril, a escolha das datas — 23, 24 e 25 de abril — não é inocente. O espectáculo instala-se no coração simbólico do calendário democrático português para lembrar que as conquistas da liberdade nunca estão garantidas. A memória, como os livros aprendidos de cor pelos personagens em cena, é também um acto de resistência.
Burn Burn Burn é teatro que incomoda, que sacode e que convida à reflexão coletiva. Com uma encenação a cargo de duas das vozes mais relevantes do teatro português contemporâneo, o espectáculo chega em momento de rara pertinência política e cultural. Aparecer na Culturgest neste fim de semana de abril é, também, uma forma de resistir.
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