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Caetano Veloso | “Abraçaço”

«A bossa nova é foda»

Um novo disco de Caetano Veloso será sempre um acontecimento: não só pela incansável actividade de um dos pais da Tropicália, mas também pelo constante desbravar de novos territórios. E só isto torna um olhar retrospectivo sobre Caetano num acto quase redundante, que invalida o exercício de síntese – e não há muitos artistas de que se possa dizer tal coisa.

Ao terceiro disco com a Banda Cê, Caetano fecha um ciclo, que passou pela crueza quase adolescente em “Cê” e se emancipou numa maturação em “Zii e Zie”. Assim, quase apetece afirmar que o “Abraçaço” talvez seja o mais acessível dos registos com a banda: a nível sonoro é de fácil digestão, mesmo quando a lírica opta por territórios mais obscuros.

Em boa verdade, Caetano continua a exorcizar demónios. Mas ao mesmo tempo manda o tal “abraçaço”, que é “não só um abraço grande, mas um abraço espalhado, abrangente ou múltiplo”. Assim, circula num território que se afasta dos facilitismos e falsos sorrisos que daqui se possam deduzir, para assentar numa honestidade desarmante.

Vemos o desencanto na vertente política (“Os comunistas guardavam o sonho”) mas também numa vertente de introspecção (“O lugar mais frio do Rio é o meu quarto”); vemos a celebração da música (“A bossa nova é foda”), mas também os problemas da sua coexistência com a Realidade (“Não aprendi nada com aquela sentimental canção, nada para alertar meu coração”).

Não obstante, “Abraçaço” acaba por ter a mesma força na alegria e na tristeza. Bastará atentar em «Parabéns» e de seguida em «Estou Triste» para perceber esta dualidade da banda de Caetano. Num registo quase minimal e muito pouco polido, as faixas vão fluindo com uma natureza absolutamente simbiótica e heterogénea: não há lugares-comuns nem há encenações. Pode ser o disco mais feliz do mundo e também o mais triste: na via das dúvidas, trata-se de um disco exemplar de um músico absolutamente singular.



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