rdb_cela211_header

Cela 211

Agarrados pelos "huevos".

Como o noviço guarda prisional que é deixado para trás no dealbar de um motim e acorda rodeado de prisioneiros violentos, corpos tatuados, cabeças rapadas, psicoses várias, o espectador não tem escapatória, é agarrado pelos “huevos” desde esse momento inicial e só é libertado momentos depois do genérico final começar a rolar. É raro um filme ter a capacidade de fazer esquecer que se está numa sala de cinema, o maior triunfo de “Cela 211” de Daniel Monzón é encerrar o espectador dentro daquela prisão junto a todos os outros, sofrendo as reviravoltas, os momentos de tensão, as rivalidades, os jogos de poder, esquecido de que há um mundo lá fora.

Monzón e Jorge Guerricaechevarria, autores do argumento baseado no romance homónimo de Francisco Pérez Gandul, aplicam a receita do filme de sucesso, aumento constante da tensão, momentos que põem o protagonista em perigo, que podem cair a seu favor ou a desfavor, de repente parece que tudo se vai resolver a bem, no minuto seguinte está tudo de pantanas. “Cela 211” é uma viagem de montanha-russa, cada vez mais alta, cada vez mais perigosa, a manipulação do espectador é total e lembra “Mother – Uma Força Única” de Bong Joo-ho. O único problema com este tipo de filmes é que o espectador quase se sente violentado no fim, como se tivesse sido fechado numa cela com um homenzarrão barbudo e apaixonado.

No entanto, “Cela 211” tem outras qualidades assinaláveis, para lá do argumento asfixiante. É um estudo atento do funcionamento das instituições (neste caso, das prisionais), das más decisões, dos passos em falso, as hierarquias, as fricções, e, sem ser uma denúncia panfletária, apresenta muitos dos problemas das prisões dos países civilizados, os desleixos – a cela 211, onde vai parar o nosso protagonista, fora ocupada antes por um preso que se queixava de fortes dores de cabeça, às quais nunca se deu a devida atenção, e afinal o homem tinha um enorme tumor na cabeça -, os abusos, os subornos.

O filme também devota a sua atenção às dinâmicas entre presos. O líder Malamadre, interpretação “maior do que a vida” de Luis Tosar, é uma figura interessantíssima, perigoso, mau como as cobras e, contudo, põe o protagonista, por quem se sente, ao mesmo tempo, atraído e ameaçado, debaixo da sua asa, protege-o das desconfianças, dá-lhe lugar de destaque no meio do motim, aliás, a relação entre os dois é um dos motores de “Cela 211” e os seus destinos estarão inexoravelmente interligados. Depois, há heróis aparentes, traidores sub-reptícios, vilões honrados e um protagonista à beira do precipício. As personagens, mesmo as mais secundárias, são todas bem delineadas, idiossincráticas e muito espanholas, se isso for adjectivo suficiente para as descrever.

“Cela 211” é um bom produto da pujante indústria cinematográfica espanhola (o nosso pequeno artesanato que sonha com Hollywood ainda tem partir muita pedra para chegar a este patamar) e perdoa-se-lhe o excesso de manipulação e uma ou outra reviravolta mais aparatosa.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This