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Celebrando a mestiçagem no Porto

Festival Mestiço 2009 @ Casa da Música. 2 a 5 de Julho.

Num país em que profileram festivais dedicados à world music, o Mestiço tem vindo, ano após ano, a afirmar-se como um dos mais importantes do género, se o entendermos em sentido amplo (isto é, aberto a novos projectos de cruzamento de abordagens tradicionais com novos estilos, ritmos e instrumentos contemporâneos). Assumindo uma matriz eminentemente urbana, esta edição do Mestiço, a quarta, poderá ser talvez a da sua consolidação, pontuada por uma interessante afluência de público que garantiu sempre casa cheia e que, no sábado, esgotou completamente os lugares disponíveis.

Sendo o Brasil o país-tema da Casa da Música em 2009, seria incontornável o festival não dedicar uma atenção especial a projectos musicais tupiniquins. E tal foi o que aconteceu nos três primeiros dias do Mestiço, em que se procuraram cruzar concertos de músicos brasileiros com apresentações de projectos musicais de outras latitudes.

No primeiro dia, coube ao português JP Simões a responsabilidade da abertura do festival, abrindo espaço para o concerto do lendário percursionista Náná Vasconcelos a quem se juntou a cantora Virginia Rodrigues, cuja voz sui generis foi descoberta por Caetano Veloso nos anos 90 e que conta actualmente com uma ampla legião de fãs em Portugal.

Virginia de Sousa regressaria ao palco da Sala Suggia da Casa da Música no dia seguinte, para uma participação muito especial no concerto da Orquestra Imperial, que inclui um dueto com Wilson das Neves, para uma interpretação conjunta do célebre samba «Sonho Meu». Com uma formação de 16 músicos, este é um projecto peculiar que reúne músicos envolvidos em diversas bandas cariocas bastante conhecidas entre nós (Domenico/Veloso + 2; Los Hermanos, Seu Jorge, Arnaldo Antunes), que se dedica a recriar repertórios variados, composto por sambas pré-carnavalescos (entre clássicos dos anos 60 e composições originais), música de salão e alguma bossa nova. Apesar do mau tempo ter obrigado a que o espectáculo se realizasse no interior da Casa, ao contrário do inicialmente previsto, o público não fez cerimónias – houve até um acontecimento inédito: comboinho carnavalesco em plena Sala Suggia! Seguiram-se os Babylon Circus, num registo musical completamente diferente: entre o rock, o ska, o swing e a música de dança. Com mais de uma década de carreira, este grupo francês evidenciou bastante experiência de palco, tendo feito uma apresentação musicalmente competente, mas que não surpreendeu.

Beneficiando de uma temperatura agradável e estável, os concertos da noite de sábado puderam realizar-se no palco exterior. O cartaz deste terceiro dia foi complemente dedicado a projectos brasileiros, apostando-se numa certa diversificação de estilo musicais – apesar de uma orientação para o dub/reggae/dancehall. Perante uma Praça da Casa da Música absolutamente esgotada, assistimos ao concerto de Lei Di Dai – acompanhada por dj e mc portuense Bezegol nos pratos – que apresentou o recente “Alpha & Omega”. Num registo essencialmente dance-hall, Lei Di Dai apresentou diversos temas originais utilizando diversos riddims clássicos que facilmente conquistaram uma plateia ávida de reggae (afinal, eram os Natiruts os cabeças-de-cartaz da noite).

Seguiu-se Comunidade Nin-Jitsu, pioneiros do cruzamento entre rock e baile funk e que gozam de uma longa carreira ainda desconhecida em Portugal. Visivelmente emocionados com este primeiro concerto fora do Brasil, a atitude e as temáticas provocadoras da banda – essencialmente, sexo, drogas, funk e rock’n roll! – conseguiram rapidamente conquistar o público, pondo toda a gente a dançar. O concerto terminou com uma pequena multidão de “popuzadas” em palco, para um medley em ritmo electro/baile funk que inclui clássicos improváveis como «Smells like teen spirit».

A noite terminou em êxtase para as centenas de fãs de Natiruts, que cantaram de plenos pulmões muitos dos êxitos da banda brasileira. O espectáculo centrou-se numa receita equilibrada entre temas do recente “Raçaman” (de 2009) e muitos clássicos como «Presente de um beija flor», «Liberdade pra dentro da cabeça» ou «Meu reggae é roots», entre outros.

O quarto e último dia do Mestiço foi reservado para projectos de origem e inspiração mais africana, tendo sido o único que não contou com nenhum músico brasileiro em palco.

A abrir as hostilidades, Projecto Batida que vieram apresentar o álbum “Dance Mwangolé” que deverá sair dentro de um mês. Centrando-se no kuduru, este é o projecto que reúne dj Mpula (Radio Fazuma), Beat Laden (Cartel 70), Ikonoklasta (Projecto Negonguenha) e outros. O concerto contou com a participação de duas bailarinas dos Batoto Yetu e de vjaying que ajudaram a reforçar a forte componente gráfica e iconográfica deste projecto. Entre o passado e o presente, aqui se misturaram as multiplas referências a Angola e a África, num projecto que poderá vir a ter um grande impacto em Portugal e não só – Buraka Som Sistema watch out!

Numa abordagem kudurista mais clássica, e também com um ritmo de BPM mais acelerado, seguiu-se Bruno M, directamente de Angola, para um curto mas intenso concerto, acompanhado por uma dupla de kuduristas que “deram o litro” e decididamente conseguiram criar um ambiente de festa e incendiaram a pista de dança na Sala 2 da Casa da Música.

A encerrar a noite e o Festival, os tão aguardados Konono No1, vindos do Congo, trouxeram os ritmos explosivos, embalados em ritmos e melodia simultaneamente simples e complexas, num mantra hipnótico de camadas sonoras que assentam no likembe (um pequeno instrumento de madeira e metal, amplificado de modo muito rudimentar). Com mais de 40 anos de actividade, os Konono são uma lição de modernidade; na sua música encontramos múltiplas referência totalmente actuais: da atitude do-it-yourself e completamente lo-fi (responsável pela grande popularidade que gozam no meio indie), aos ritmos intricados e complexos, que nos conduzem, em transe, numa dança sem fim. No final, os Konono regressaram ainda ao palco para um último encore que, ainda assim, soube a pouco porque a vontade de dançar era muita e as cerca de duas horas de concerto pareceram passar num instante.



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