SuzanneCollins © Cap Pryor_2

“Amanhecer na Ceifa” de Suzanne Collins

A neve pode cair, mas o sol nascerá

Cinco anos após a edição de A Balada dos Pássaros e das Serpentes, Suzanne Collins fez chegar recentemente aos escaparates mais um capítulo de Os Jogos da Fome, uma das séries de ficção distópica mais bem-sucedidas dentro do universo daquilo que se passou a designar por Jovem Adulto e que transporta o leitor para as origens de um mundo pós-apocalíptico e sombrio. 

Assim, Amanhecer na Ceifa (Presença, 2025) é um (novo) regresso ao passado caustica Panem em forma de prequela, desta vez para celebrar a edição 50 dos Jogos da Fome, também conhecida como o Segundo Massacre Quaternário, e que traz a palco um dos personagens mais fascinantes e misteriosos da série: Haymitch Abernathy, aquele que ficou conhecido como o mentor cínico e alcoólico de Katniss Everdeen.


Mergulho em forma de apneia no universo criado por Collins, a narrativa de Amanhecer na Ceifa situa-se 24 anos antes da memorável jornada de Katniss, tendo como pano de fundo uma Panem ainda em luto, amargurada pelas cicatrizes da rebelião e pelo crescente ressentimento entre os distritos e a Capital liderada por Snow. Fiel a um estilo que a fez ganhar milhões de fãs em todo o planeta, a autora norte-americana natural de Hartford, Connecticut, volta a usar a violência da competição como lente crítica para analisar o poder, a manipulação mediática e os mecanismos de opressão institucional. No entanto, neste livro, nota-se uma diferença subtil e marcante, destacando-se um foco emocional mais intenso, uma crítica política mais afiada, e um tom (ainda) mais escuro e introspetivo do que nos tomos anteriores.


A escolha e o foco em Haymitch como protagonista resulta na construção de um puzzle trágico, dando a conhecer melhor um dos nomes mais emblemáticos da saga, mas cuja história nunca foi bem contada, exceto através de flashbacks fragmentados e diálogos ambíguos. Essa “correção”, importante para o todo da épica trama cujo primeiro tomo já remonta a 2010, dá a descobrir o adolescente inteligente, rebelde e resiliente por trás do homem amargurado que já conhecíamos. Mas, este “novo” Haymitch não é heroico nos moldes tradicionais, sendo essa característica que o torna mais humano, e Amanhecer na Ceifa sublinha as várias camadas que o moldam, assim como a sua relação com a violência, a perda, a responsabilidade e o trauma

Voltando ao centro da narrativa, e sem levantar muito o véu, estamos perante o retrato da edição 50 dos Jogos da Fome, que tem a particularidade de ter o número de tributos duplicado (48 jovens ao invés de 24), o que amplia a brutalidade do evento, oferecendo ao leitor uma dimensão ainda mais caótica e cruel da arena. A decisão de Panem de tornar esta edição um espetáculo ainda mais sangrento é um reflexo direto da deterioração moral da Capital, mas também do fascínio macabro do público por sangue, uma crítica mordaz à espetacularização do sofrimento.

E se no livro anterior temos uma perspetiva privilegiada da origem da elite de Panem através dos olhos de Coriolanus Snow, Amanhecer na Ceifa foca-se no espírito da resistência interior. Essa visão é alimentada pelo facto de a trama não acompanhar apenas a ação na arena, já que existe uma construção muito cuidadosa do ambiente opressivo em que os jovens crescem, da educação programada, da propaganda, da pobreza e do medo constante. Collins consegue, com habilidade, fazer paralelismos entre as formas de controlo em Panem e o mundo contemporâneo, conferindo atualidade à sua criação distópica.

Ter Haymitch no olho do furacão, na demanda de um plano rebelde que ameaçará toda a Panem e o futuro dos Jogos, adensa esse ambiente, pois, alerta spoiler!, não conhecemos apenas o sobrevivente, mas um jovem em queda livre emocional, cujo sofrimento não termina, como seria “natural”, com a vitória, com a suposta glória engaiolada. Pois, a forma como é tratado após os Jogos é um retrato nu e cru de como os sistemas violentos, déspotas, descartam até mesmo os seus “vencedores”.

Mas nem só de Haymitch vive este livro. Há também os seus colegas tributos, no caso Wyatt, Maysille e Louella, caras conhecidas no Distrito 12 e que serão também alvo de uma crescente análise evolutiva à medida que os jogos decorrem, mas também outros (mais ou menos) conhecidos, suportáveis ou intragáveis, como Plutarch, Effie, Drusilla, Beetee, Mags, e, claro,  Lenore Dove, a paixão rebelde de Haymitch, a sua “todo-fogo” e tema maior das poesias e canções revelados neste livro.


Para edificar e solidificar a narrativa, Collins recorre a ambientes e paisagens envolventes e cinematográficas, alternando momentos de tensão extrema com pausas introspetivas que permitem respirar e refletir, interiorizar a história. O ritmo é, como convém, acelerado, mas pontuado por trechos que exploram o passado de Haymitch, as dinâmicas do Distrito 12 e os bastidores da opressiva Capital.

A aposta num narrador em primeira pessoa, desta vez com a voz amarga, perspicaz e por vezes sarcástica de Haymitch, confere textura emocional à saga. Pois, através dessa lente, sentimos a arena não só como campo de batalha, mas como um teatro de crueldade orquestrado pelo Estado.

No seu âmago, Amanhecer na Ceifa ambiciona a ser mais do que uma prequela. É uma espécie de espelho retrovisor que intensifica o impacto da trilogia original, sempre acutilante na arte de fazer a (habitual) crítica social, conseguindo manter o perfil de um romance denso e devastador, que nos recorda que a distopia não está apenas no futuro, podendo ser moldada todos os dias, a cada minuto, já que está gravada nos pequenos gestos de conformismo ou resistência. Mas, mesmo que os verdadeiros objetivos não sejam alcançados, face a uma sociedade sob a forma de roda dentada esmagadoramente eficaz, opressiva, omnipotente e vingativa, por mais que o céu escureça, tapado pela escuridão da dor e pele neve que caí sem tréguas, enquanto houver um sentido de justiça, coragem e força, o sol irá aparecer no horizonte. Nem que seja enquanto espaço para uma esperança moldada na memória daqueles que mais amámos.   



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