Ler é o melhor remédio
Da saúde mental aos desafios da parentalidade num mundo digital

Essas coisas que nos pesam acontecem
de Pablo R. Coca
Casa das Letras (leyaonline.com)
No auge da pandemia, o psicólogo espanhol Pablo R. Coca criou, nas redes sociais, o universo Occimorons, uma banda desenhada protagonizada por Occi e Morons, duas faces de uma mesma moeda em forma de personagem, para ajudar a irmã, autista, e todos os jovens, a lidarem com os desafios da sua saúde mental.
Esse projeto chega agora em formato livro, sinónimo de uma novela gráfica, a preto e branco, que, de uma forma simples, sublinha a importância de pedir ajuda, algo que o especialista que gosta de se auto definir como «o psicólogo que vai ao psicólogo», assume como «um direito, não um privilégio». Isto porque, defende, «que não te enganem. Nem sempre o poder está na nossa mente, nem sequer somos culpados de todo o nosso mal-estar. Por vezes, o problema é mesmo da vida que temos».
Num registo autobiográfico muito livre, onde as páginas não têm número, mas apenas traços negros que embelezam o branco do seu fundo, Essas coisas que nos pesam acontecem oferece dezenas de vinhetas que incluem, entre outros, textos pessoais de Coca escritos antes, durante e depois do seu próprio processo terapêutico, cujo minimalismo pretende retratar a relação que se cria a partir da frequência de um espaço que “opõe” especialista e cliente, quem oferece ajuda e quem quer ser ajudado, mesmo que este último pense, sem razão, que (já) não precise desse apoio.
Nesta história que tem também o objetivo de normalizar a decisão de pedir ajuda, desde que profissional e certificada, ficamos a saber, se é que já não o saibamos…, que as coisas que nos sobrecarregam podem ser enormes ou pequenas, estando o seu peso relacionado com a (in)capacidade de perceber, de aprender, que é normal ficar refém dos nossos pensamentos, seja isso sinónimo de ansiedade, perda, tristeza ou não conseguir dormir face ao desgastante jogo da ruminação de ideias que nos intoxicam.
Felizmente, para nos ajudar a lidar com essas questões mais ou menos quotidianas, Occi e Morons são os heróis que nos demonstram que as “coisas” não acontecem só aos outros. E graças aos textos e às ilustrações minimalistas de Coca, encontramos situações semelhantes às nossas, momentos difíceis e outros nem tanto, momentos de libertação e tudo o que ouvimos sobre saúde mental.
Tome nota
«[antes] Há já alguns dias que me sinto emocionalmente muito bem. Devia ter cancelado a consulta com o psicólogo… [depois] Ainda bem que fui, porque realmente não estava tão bem como pensava…»

Ainda vamos a tempo
de Ivone Patrão
Contraponto (contrapontoeditores.pt)
Num mundo cada vez mais digital, o que podemos fazer para resgatar os nossos filhos dos ecrãs? A pergunta, pertinente, assombra-nos, mas é altura de lutar por essa urgente realidade.
Para ajudar nesse processo, Ivone Patrão, psicóloga clínica com mestrado em Psicologia da Saúde, e docente e investigadora no ISPA – Instituto Universitário e no Applied Psychology Research Center Capabilities and Inclusion (APPsyCI), assina um livro que funciona como um autêntico grito de alerta para os impactos do mundo digital no bem-estar de crianças, adolescentes e famílias, sendo simultaneamente uma obra de intervenção, com uma linguagem acessível e um tom direto que convoca pais, educadores e a sociedade civil para uma reflexão urgente.
Com prefácio do psiquiatra Daniel Sampaio, Ainda vamos a tempo tem como questão central que saúde mental estamos a promover num mundo cada vez mais conectado e, paradoxalmente, cada vez mais desconectado do essencial. Para refletir sobre esse tema, Patrão apresenta dados, casos e reflexões que apontam para o aumento dos níveis de ansiedade, insónia, dependência tecnológica, isolamento e dificuldades de regulação emocional, especialmente entre os mais jovens.
Mas, por outro lado, oferece caminhos, saídas, seja isso a escuta, a presença, a regulação e/ou a reeducação parental, sempre baseados na empatia e na responsabilização partilhada. E, para passar de teoria à prática, este livro é feito de capítulos curtos, perguntas reflexivas e exercícios simples, convidando à ação imediata, desde, por exemplo, o recurso a ferramentas práticas e estratégias de comunicação familiar até à definição de rotinas digitais saudáveis, mostrando que a mudança começa no microcosmos da casa, da sala de aula, da relação entre pares. Ainda assim, mais do que impor regras, a investigadora desafia-nos a recuperar a consciência e o equilíbrio, propondo uma abordagem positiva e preventiva da saúde mental.
Numa altura em que o debate sobre os efeitos da tecnologia ainda é, muitas vezes e erradamente, dominado por extremos ou moralismos bacocos, Ainda Vamos a Tempo surge como uma proposta sensata, fundamentada e, acima de tudo, humana. E, se quisermos deixar um legado às novas gerações, vale a pena escutar o aviso de Ivone Patrão: ainda vamos a tempo. Mas, só se começarmos já.
Tome nota
«Deixámos entrar os telemóveis nas escolas, nos intervalos, sem regras muito concretas e concertados por todos. Contudo, agora, já sabemos que precisamos de fazer diferente, e, em conjunto, há que definir regras e limites para, por exemplo, priorizarmos o real objetivo de um intervalo escolar – comunicar, socializar, exercitar o corpo, fazer uma refeição ligeira.»
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