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Comme des Garçons | Outono-Inverno 12/13

Entre o virtual e o superficial

Inquietante, no mínimo, é a nova colecção Outono/Inverno da criadora japonesa Rei Kawakubo, cujo brilhantismo conceptual, bem acima de quaisquer valores comerciais, aflora e surpreende a cada temporada ao assinar pela Comme des Garçons. Desta vez Kawakubo alcançou o limiar pela emergência de discussões infindáveis – voltamos ao debate clássico em que moda e arte se confrontam, em que o artista e o designer se equivocam e, no fundo, se questionam os fundamentos basilares daquilo que é, no cerne, criar moda. As provocações de Kawakubo são mais do que pertinentes ao conceber uma colecção que, apesar de se distanciar largamente do carácter wearable, instiga argutas reflexões acerca do futuro da experiência humana e das suas percepções.

As linhas são recortes violentos onde a silhueta sofre uma profunda mutação ao alargar-se segundo bainhas desmedidas. O resultado é uma forte impressão bidimensional das peças, como se não passassem de recortes ou colagens, de meras figuras às quais carece uma existência real, palpável. As peças transcendem-se a elas mesmas, não deixando, contudo, de ter a sua coesão. Há cores intensas que pintam coordenados na sua integralidade, bem como motivos florais e um toque de brilho bem no final.

São duas as dimensões do futuro. Kawakubo não hesita e reflecte-o numa colecção em que a divagação conceptual parece ir além das costuras – como, aliás, as suas próprias criações. As críticas tornam-se, pois, bem mais inteligíveis. A primazia da virtualidade fomentada por crescentes dispositivos tecnocráticos dissemina-se por todo o tecido social onde, ironicamente, a aparência física, o aspecto – a superfície – conta cada vez mais. É neste jogo de contrastes, entre o virtual e o superficial, que a Comme des Garçons pensa e faz pensar acerca da próxima estação.



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