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“Condomínio da Rua”

Em cena de 17 de Janeiro a 10 de Fevereiro, no Teatro Nacional D. Maria II

A sinopse de “Condomínio da Rua” remete-nos para uma introspecção centrada na exclusão social, quais os problemas daqueles que dormem sobre a luz da lua, as suas implicações patológicas, familiares, culturais e sociais.

Quando cheguei ao teatro já a sinopse jazia num canto qualquer da minha memória. Olhava à minha volta sem ver, enquanto um ar intimista me subia pelas narinas arrastando consigo um certo travo desconcertante. Mais tarde, entre deambulações mentais, o Teatro Nacional Dona Maria II surge como uma Fénix que manda a Santa Inquisição arder no fogo do inferno, por toda a eternidade e renasce das cinzas, de um avassalador incêndio – 1836. Fumo e fogo, e fragmentos de céu e estilhaços azuis e chistes sobre karma e conversas privadas entre Jesus e Lúcifer – the (b)right said of brain. Sou atraída para a realidade pela confusão que se faz sentir no foyer indicando que é hora de entrar. Já no meu lugar, envolta num ambiente acolhedor, coberto de veludo vermelho, abandono o aparentemente visível e perco-me novamente no tempo. Desta vez, é o lustre bem no centro da sala que me traz de volta à realidade e ao palco.

No palco, a cenografia é maravilhosa, o jogo de luzes e as sombras também. O painel de vidraças partidas ao fundo lembra uma imponente prateleira de madeira, que marca o tom sombrio da história, assim como todo aquele caos organizado, espalhado por cada centímetro de palco, onde seis actores desempenham muito bem cada um dos seus papéis. E a música, uma encantadora harmónica.

Há na peça qualquer coisa que não me prende a ela. E é difícil admitir, mas sei exactamente o que é..! A própria temática. Esta faz muito parte da minha paisagem urbana. E, aqui, o meu coração é um ilhéu que um vulcão cuspiu. Talvez sejam anseios recalcados ou talvez não. Facto é que vivo num condomínio que é uma avenida inteira, de seu nome Almirante Reis, e que a partilho com os inquilinos do Condomínio da Rua.

Como público, confesso, que os meus olhos brilham e a minha alma se enche, quando vejo coisas bonitas. Sendo que, o que é o belo pode ser entendido de forma unânime entre o ser humano mas também estender-se a um espectro de beleza mais particular, capaz de causar desconforto e pôr diferentes perspectivas em confronto directo. Considero também que, para além do elemento da beleza, e no que concerne à representação, é fundamental que uma boa história seja contada, transportando o próprio espectador para a acção. Exemplos disso são a longa-metragem de Salomé Lamas, “Terra de Ninguém”, e um livro que li, enquanto adolescente, da escritora de “Lua de Joana”, Maria Maya Gonzalez.

A peça “Condomínio da Rua”, com belíssima encenação de João Mota e autoria de Nuno Costa Santos, estará em cena até dia 10 de Fevereiro, de 4ª a Sábado às 21h e Domingos às 16h, na Sala Garrett do Teatro Nacional D. Maria II. Passem por lá, vão gostar.

Fotografia de Filipe Ferreira



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