Crystal Castles @ TMN Ao Vivo (17.02.2013)

Crystal Castles @ TMN Ao Vivo (17.02.2013)

Alice do outro lado do espelho

Desde os primeiros registos que os Crystal Castles deixaram bem definida a sua posição incendiária, e desde então que fazem questão de a evidenciar, quer em disco, quer in loco. Em promoção ao seu mais recente registo de originais, “(III)”, o duo canadense regressou ontem a Lisboa, onde em 2010 tinham dado um concerto magnético para um Coliseu não tão cheio. Os tempos mudam e o público da banda expandiu-se verdadeiramente, trazendo um som obscuro para um ribalta saturada pelos sons mais gratuitos – não sei se ainda será cool dizer que se gosta dos Crystal Castles.

O compasso de espera de meia hora entre o final da actuação de um DJ convidado (a escolha dificilmente poderia ter sido mais falhada) pareceu durar infinitamente mais. Com um público relativamente calmo (face ao que se avizinhava), seria difícil de prever que o cenário minimalista montado no palco do TMN Ao Vivo serviria um espectáculo nada menos do que avassalador. Apagam-se as luzes, faz-se fumo e Ethan Kath e Alice Glass dirigem-se ao pódio: por esta altura, começa o êxtase, absolutamente justificado logo nos segundos iniciais de «Plague».

Se na última passagem em Portugal (em Paredes de Coura há dois anos atrás) Alice tinha extravasado pouco a sua persona de palco e se tinha alheado numa prestação embriagada sem particular carisma, aqui o caso foi outro. Ora invadindo todos os recantos do pequeno palco, ora surfando na multidão (ora lutando com outro adepto do crowdsurfing), não foi menos que explosiva. Alice Glass mantém a sua aura de inocência manchada pelo contacto com um mundo visto através de uma lupa obscura de perversidade e foi debitando os êxitos mais orelhudos, mas também os mais escondidos.

Percorrendo de forma bastante democrática os três discos da banda, os Crystal Castles vão debitando performances efusivas e arranjos quase industriais (introduzidos maioritariamente no segundo disco) de um percurso invejável. Mais surpreendente será que todas as faixas parecem as favoritas da audiência, verdadeiramente imparável e em êxtase. «Baptism», logo na segunda posição do alinhamento, deixa desde logo antever a onda de destruição – devidamente continuada em faixas como «Alice Practice», «Untrust Us» ou o excelente novo single «Sad Eyes».

Na recta final, deram-se a alguns devarios experimentais na mesa de mistura de Kath, onde talvez se tenham extendido mais do que o desejado – a audiência estranhou a longa incursão nas sonoridades espôntaneas. Mas a compensação não tardou – «Not In Love», que teve o pico de sucesso na voz de Robert Smith, chegou para esgotar as energias de uma plateia, antes do encore. Seguir-se-iam a desconcertante «Intimate» e, a acabar, «Yes No», sem surpresas enquanto chave-mestra de um alinhamento irrepreensível.

Volta a confirmar-se a pertinência de ouvir os Crystal Castles in loco: uma prestação incendiária sem precentes – e inescapável, quanto mais não seja porque o mosh não deixa ninguém ir muito longe da frente de batalha.

Fotografia via Pitchfork



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