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d3o Exposed

O mais recente trabalho da banda em discurso directo.

Já lá vão cerca de oito anos após a aparição dos d30, no espaço Le son em Coimbra, naquele que seria o primeiro concerto a dar-lhes o prenúncio para alguma projecção. E o certo é que passados esses mesmos anos a formação conimbricense, que abriu o concerto dos indomáveis, e já findos, Parkinsons, apresenta-se mais fresca que nunca. Editam, após três Eps e alguma estrada, também em paragens internacionais, o seu primeiro longa-duração, “Exposed”.

A reunião de integrantes de antigas bandas que incitavam a cidade do Mondego, numa altura específica, a mergulhos por recantos de inspiração rock´n´roll e seus afluentes e a necessidade de lhes atribuir uma nova forma, terá sido o alento inicial para a formação deste trio de músicos e amigos. A Toni, a emblemática presença vocal de É m´as Foice e dos icónicos Tédio boys, aliam-se, nesta aventura, Tó Rui, guitarrista – ex-Batwingz e Garbage Cats – e Miguel Benedito, baterista e  ex-Planet Jacumba e Garbage Cats. O calo deixado pelo caminho, já considerável, percorrido torna-os uma banda live de excepção. E quem assistiu à estreia de “Exposed”, a cinco de Junho no Musicbox, poderá comprová-lo com a maior nitidez.

Mas, o colectivo blues rock que resulta bem ao vivo, assume-se em disco tal qual resulta ao vivo. E segundo os mesmos “mais exposto que nunca”. A RDB esteve com Miguel e Toni, para uma agradável retrospectiva de análise musical da banda, contada na primeira pessoa, onde se falaram, desde as influências que serviram ao longo do tempo de referência/inspiração para a banda, ao passado/presente do grupo e seus membros e até a possibilidade de concepção de uma banda sonora idealizada pelos mesmos.

A banda sonora de Exposed? Essa é, sem dúvida, a Vida. Falo-lhes desse concerto no Le Son em 2001, altura em que ainda estavam a dar os primeiros passos como d3o e Miguel relembra: “Foi o nosso primeiro concerto, e fizemos a primeira parte dos Parkinsons. Não o primeiro primeiro, na medida em que já tínhamos feito uma espécie de teste num bar em Ceira, mas efectivamente o primeiro no sentido de alguma projecção”. Ao grafismo e decor emprestados a “Exposed” juntam-se a gravação em analógico, o facto de filmarem em película e a envolvência de um sentido que pode não ser novo, é certo, mas expõe a banda tal qual ela se nos dá a conhecer e soa ao vivo. Para Toni: “Queríamos uma abordagem um pouco diferente daquela que tivemos nos Eps anteriores, não é nova em relação ao que outros já fizeram, naturalmente, mas exprime a forma que quisemos dar ao projecto e, especialmente, a este último. Tanto a forma dada à gravação como o art work foram uma maneira de atribuir um contacto diferente a este trabalho, já que nos três Eps anteriores tínhamos usado mais cor dando, assim, uma moldura diferente aos trabalhos.”

Lanço-lhes um repto: Resultará o trio bem ao vivo ou soa em disco como resulta ao vivo? Toni responde “o ideal seria… nos trabalhos que editamos conseguir um som como aquele que temos ao vivo. Consideramo-nos uma live band. O facto é que gostamos de tocar ao vivo e é o sítio onde nos sentimos melhor”.

O trio traz, como referido anteriormente, larga experiência de projectos anteriores, ao vê-los no presente sentimos que os caminhos distintos de cada um convergiram num só. Quiçá o denominador comum dos percursos a que cada um se dedicou no passado tenha agora, como uma concentração de matriz, se fundido num só – como se as referências de cada um reagissem no vasto universo que é o rock´n´roll. O rock sofre, por vezes, torções exageradas que o afasta, de modo mais ou menos significativo, do modelo original, mas a curiosidade mais apetecível em d3o será mesmo a contraposição a esta realidade. É como se conservassem a forma original, as guitarras deambulam em disco como ao vivo, a voz é tão, ou mais, intensa do que a sentimos em disco e a bateria assume o delírio que assistimos nos concertos. “Considero que não nos afastamos muito daquilo que fazíamos, reforça Toni, d3o surgiu, essencialmente, pela vontade que tivemos em dar um formato distinto às influências que todos nós trouxemos de bandas anteriores. Mas, lá no fundo, o universo é o mesmo que já abraçávamos lá atrás. É o rock em toda a sua amplitude. O mais vasto possível.”

O cruzamento das várias influências assume uma nova análise aos olhos de Miguel: ”Penso que é um pouco mais abrangente. Possivelmente, há uns anos atrás a informação que nós tínhamos não era a mesma, conhecíamos muito menos coisas das que conhecemos e fomos assimilando até hoje, felizmente, até porque sentimos que estamos sempre a aprender. Na altura quem tinha projectos estabelecia, de certo modo, uma relação directamente ligada ao que via e ouvia e que eram, de facto, as nossas influências naquela época. Hoje em dia, como somos envolvidos por muito mais informação, acaba por se reflectir no nosso estado de espírito quando criamos algo, embora (e parece ser a conotação essencial do trio) queiramos e tentemos sempre fazer as coisas com uma certa espontaneidade. Ao contrário do passado as inspirações, agora, não são só a banda ou artista que tu admiras e conheces”, acrescenta Toni, e continua “hoje em dia as influências passam muito por aquilo que tu vives, as pessoas que te rodeiam  e as situações que provocam. Quando estamos a tocar uma determinada música temos sempre na essência a vivência do conjunto – da banda em si”.

Toni é o autor das letras. Questiono-o acerca da urgência com que escreve, se escreve pensando nele ou no conjunto. O vocalista de d3o esclarece “é natural que hajam algumas coisas que sejam verdadeiramente pessoais, mas o facto de estar rodeado de pessoas, que exercem uma influência, directa ou indirecta, sobre mim contribui, igualmente, nesse processo criativo”.

d3o compõe-se de senhores que já cá andam há algum tempo, mas tocam com o tropismo e verdade que lhes conhecemos de formações anteriores. Após anos de destemperos pendulares no que concerne ao estado fundamental do rock´n´roll, d3o avivam-nos a memória sobre a essência fulcral destas derivas: a espontaneidade, o acreditar, a exposição e a naturalidade destemida numa época carregada de análises superficiais e pouco verdadeiras. Relativamente à quantidade de ensaios da banda, Miguel diz ”actualmente não ensaiamos tantas vezes como desejaríamos, mas também a necessidade de ensaio frequente não é a mesma do que quando nos estávamos a relacionar. Se no início ainda nos estávamos a conhecer, hoje em dia já conseguimos comunicar enquanto tocamos, ao invés do que acontecia no passado, em que nos centrávamos de modo mais individualizado naquilo que estávamos a tocar e se numa escala de zero a dez estávamos, na altura, no ponto zero agora talvez estejamos no dois.” Para Toni, “os erros agora não são erros. São directrizes, sinais para tu saberes o que vais fazer a seguir. A maioria das músicas são feitas já a tocar, muitas vezes é no sound check, outras em que há um riff de guitarra significativo que representa e estabelece também pontes entre nós e aparecem de forma directa, tal qual as letras. “Exposed” para nós é um estar sem subterfúgios ou virares a cortina à espera que esteja alguém atrás dela“.

A necessidade de mostrarem o que são de modo natural tem sido um objectivo da banda desde o início e parece ser essa a vontade que prevalecerá. “Exposed” fala de emoções e incertezas, de paixão, de vontades que se cruzam, em vida, com o universo sexual. «Junior Daddy», «Blindman», «Say You Will», estão cadenciados de emoção e, sobressaem a voz e os instrumentos tal qual soam em concerto, «Wanna Hold You» (que foi single de apresentação do recente trabalho) e «Camera 33» dão extensão à dinâmica e interesses do conjunto e manifestam-se dando-me a entender a possibilidade de ligação com outras áreas, nomeadamente o cinema. Falo-lhes nisso. Toni afirma, “não é nada em que não tenhamos já pensado, a última música do álbum, por exemplo (referindo-se a «Camera 33”), visiona um pouco essa vontade. Foi algo que resultou de forma muito natural, mas pensei, também nisso e é algo que tenho em mente.” Já para Miguel ”queremos sobretudo poder adaptar a nossa música a qualquer contexto. Sentirmos que pode ser ouvido/sentido em quadros de ocasiões diversas. Acho que uma banda sonora poderá ser limitadora, porque remeter-nos-á para uma história, um filme em concreto. Gostava mesmo que o nosso som se pudesse adaptar ao mais amplo espaço.”

A banda sonora poderá ser um complemento do quadro que a formação de Coimbra pretende desenhar. Melhor mesmo será ver e ouvir “Exposed”. As próximas datas, já calendarizadas, ocorrem a onze de Dezembro e dezanove em Portalegre e Rio Maior respectivamente.



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