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Elite Athlete

Regresso sem danos colaterais.

Com o fácil acesso às novas tecnologias e os diversos softwares disponíveis, o ideal do it yourself (DIY) vive uma das épocas mais frutuosas no campo da arte e a música não é excepção. Tendo em conta a lista infinita de projectos que aparecem mensalmente, há quem aproveite estas ferramentas para espicaçar a criatividade em prol de resultados credíveis, mas também há quem simplesmente polua o meio ambiente sonoro como se o buraco do ozono aumentasse cada vez que sentisse inspiração. Como separar o trigo do joio? Vá pelo seu ouvido e espere que este não o traia.

“Sem formação nenhuma, mas com a cabeça contaminada com música”

João Almeida está incluído no grupo dos bons exemplos através do projecto Elite Athlete, nome escolhido num artigo random da Wikipédia. Licenciado em Comunicação Social e locutor na RUC em quatro programas (entre os quais “Origami”), o click para a produção aconteceu por intermédio de um amigo. O relato à RDB na primeira pessoa: “Comecei a produzir essencialmente para combater o marasmo típico das tardes de Verão. Um amigo usava o Ableton Live, comecei a vê-lo trabalhar com o programa e achei que não havia de ser assim tão complicado. Sempre defendi que não é preciso ser um grande executante para fazer música. E, sem formação nenhuma, mas com a cabeça completamente contaminada com música, comecei a carregar nas teclas do computador a tentar criar sons e melodias que me agradassem.”

Burial, The Knife, How To Dress Well, Thundercat, The Weeknd, Active Child ou a editora Ghostly International são nomes que o têm “contaminado”. Algumas destas referências são visíveis no novo EP, “Last Winter”, onde tentou ser “consistente na forma como cria o ambiente negro e denso”, apesar dos vários géneros utilizados (house, hip-hop e r’n’b). Nos registos anteriores, “quando achava que já tinha material suficiente fazia uma espécie de cá vai disto. Claro que a tracklist era pensada para fazer algum sentido numa audição corrida do álbum, mas em termos de estilo não havia grande coerência”, admite o conimbricense de 22 anos.

Como é norma entre quem “faz por si mesmo”, o trabalho de Elite Athlete é promovido por uma etiqueta com poucos recursos ao contrário do conceito. “A MPD, Música Pop Desempregada [iniciada em 2010], tem um manifesto que funciona como uma declaração de intenções e uma espécie de doutrina ou código de conduta de interpretação livre dos artistas. Não são regras rígidas, mas criam um ambiente bonito de partilha e espírito DIY”, conta João Almeida. “A MPD encoraja a que as pessoas mostrem a música que produzem de forma caseira. Não há nenhum padrão de selecção no que a nível de qualidade de aspectos técnicos de produção diz respeito. Se vem do coração pode bem ser uma edição MPD”, conclui.

Quando se fala de Coimbra, a maior parte das pessoas menciona a forte tradição académica. Quem está atento ao meio musical alternativo, destacaria as guitarras e o percurso dos Tédio Boys e dos seus “filhos” como nota dominante (The Legendary Tigerman, Bunnyranch, Wraygunn ou d3ö). Para o autor que se esconde por detrás de Elite Athlete, “o rock continua a ser o grande bastião não tanto pelos projectos que vão aparecendo, mas pelo público que a cidade tem”. “Há uma espécie de aura mística a pairar na cidade”, que no entanto não invalida o aparecimento de outros movimentos. No caso da electrónica realça o papel fundamental dos DJs/promotores Afonso Macedo e David Rodrigues, que a par do espaço Via Latina (actualmente encerrado) trouxeram artistas de renome internacional, casos de Pantha Du Prince, Superpitcher, Gui Boratto e Paul Kalkbrenner.

EP Last Winter, tema a tema

A quinta investida de Elite Athlete no campo discográfico serve de feição aos que procuram acalmar a alma depois de uma festa arrojada de música electrónica. O tema-título revela uma voz robótica a lembrar «How Does it Make You Feel», dos franceses Air, e dá o mote para uma viagem electronicamente relaxante de 22 minutos. A batida acelera ligeiramente com «You Can’t Laugh While Driving», descrito pelo autor como “dancefloor de zombies”.

Abrimos a janela do quarto e com ela irrompe o sombrio e elegante «Give Another Try». Nela, a voz samplada de Sadie Ama repete “all I do is put you first” numa espécie de «My Friend» dos Groove Armada em tom intimista. Em «Simone Doesn’t Feel Like Dying», composto numa camarata com vista para um cemitério, a nossa mente é convidada a dançar no meio de uma tribo africana. Esta ideia é baseada no vídeo que acompanha este tema cujas imagens foram retiradas de um documentário dos anos 50 chamado «Congolaise». O som tem um pouco de How To Dress Well e um cheirinho de Moby antes do êxito «Play».

O encerramento dá-se com «Nothing Ever Happens», que podia ser uma composição do sueco Axel Willner, mais conhecido por The Field. É a preciosidade maior de “Last Winter” e que nada fica a dever a temas que habitualmente integram as colectâneas da Kompakt. A eloquente batida house e as ambiências criadas em seu redor confirmam um coração a pedir menos loucuras e regressos sem danos colaterais. Seja numa noite de Inverno ou de Verão.



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