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UK Funky

The Kids Are Alright

Simple lyrics, simple flows
Got the ravers on their toes

– “Funky Anthem”, Crazy Cousins Feat. MC Versatile

Mas alguém entende a música urbana britânica? Constantemente em mudança, com um sistema de divulgação que se baseia mais em programas de rádio pirata e discotecas do que em lançamentos de discos, e sem o imenso poder económico-cultural que faz com que a evolução dos estilos americanos pareça tão natural aos nossos olhos, a sua narrativa é muitas vezes caótica e confusa. Limitando-nos a este século, a história começa com o estilo conhecido como 2step, um género caracterizado por ritmos sincopados e uma atmosfera doce, feminina e populista. Rapidamente, o 2step foi ficando mais guna, através de artistas como Oxide & Neutrino e So Solid Crew, acabando por se transformar em algo muito mais agressivo e hiperactivo: Speed Garage.

Este estilo, por sua vez, foi se tornando obsoleto à medida que as batidas ficavam mais frias e monolíticas e os MCs assumiam papéis cada vez maiores, até que chegamos ao movimento declaradamente street music conhecido como Grime. Quando o Grime entrou em colapso, vítima de álbuns medíocres e tentativas frouxas de imitar descaradamente o Hip-Hop americano, seguiu-se-lhe o Dubstep, estilo intelectualizado e glacial numa vertente diferente da frieza do Grime: Dub reinventado para os nostálgicos do Trip-Hop.

E agora que também este estilo perdeu a sua utilidade, eis que chegamos àquilo que é alternadamente chamado Uk Funky, Funky House ou UK Funky House: um género caracterizado por ritmos sincopados e uma atmosfera doce, feminina e populista. Com pesquisa suficiente, e uma análise detalhada das inúmeras malhas que se inserem algures entre todos estes estilos, tudo acaba por fazer o mais perfeito sentido – mas a olho nu, a evolução parece, no mínimo, um tanto ou quanto esquizofrénica.

Remontam ao menos até 2004 os burburinhos de um revivalismo de “Funky House”. Na altura o que isto significava era uma aderência a um House nova-iorquino, com incidência especial nos lançamentos da Strictly Rhythm e um fraquinho pela visão “sofisticada” e americanizada de editoras britânicas como a Defected – pontos de referência pouco na moda, e pouca gente teria adivinhado que essa preferência espontânea poder-se-ia transformar num movimento independente.

Mas por muito antiquadas e aburguesadas estas sonoridades pudessem parecer aos ouvidos dos vanguardistas, o Funky House estava a preencher uma lacunha: música alegre, dançável e feminina numa altura em que o machismo do Grime reforçava cada vez mais a pose de hoodie e cara zangada. O sucesso nas tabelas de vendas de “The Cure & The Cause”, dos veteranos House irlandeses Fish Go Deep, veio a reforçar a situação. Lentamente, um público jovem e recheado de ex-adeptos de 2step, Grime e Dubstep se foi juntando à volta da bandeira do Funky House; o resultado foi muito além de simples imitações de House à moda de Nova Iorque.

UK Funky é um misto alucinante de estilos, ainda por definir completamente porque o estilo ainda não está estabelecido como uma convenção, mas ao mesmo tempo facilmente identificável pelos sua percussividade e pelos ritmos sincopados que abundam. Usando o House tradicional como ponto de partida, a música UK Funky adiciona elementos Grime, revivalismos do Broken Beat (há um quociente alarmante de saxofones estilo Lite Jazz) e – talvez a influencia mais importante – o espírito caríbico do Soca, a música de Trinidad e Tobago que, não gozando da mesma fama internacional atribuída ao Reggae da vizinha Jamaica, não deixa no entanto de ser um dos ingredientes mais importantes da vida cultural britânica, o som de eleição quando passam os carros do Carnaval em Londres.

Se vamos definir uma faixa “típica” de UK Funky, não pode faltar percussão, pianinho, ritmos vacilantes e o obrigatório bass, mas igualmente importante é o foco em vocalistas, principalmente do sexo feminino. “Do You Mind?”, produzido pelos geniais Crazy Cousins e vocalizado pela jovem e sedutora Kyla, é ainda o maior hino que a cena alguma vez teve, e a sua natureza recatada põe em foco as particularidades do estilo: com uma audição casual, a música pode facilmente soar apenas a MCM (há coisas piores na vida), e é preciso uma certa vontade de se deixar tocar pela inocência da jovem vocalista para entender o quão venerada é a malha dentro do circuito. Para quem ainda não identificou a euforia do ritmo UK Funky (uma arma que eventualmente se torna tão poderosa como os melhores momentos do Rave), ou para quem sofre com as vozes bem educadas do R&B actual e do House burguês, demora algum tempo a entender.

Mas o que mais valoriza o UK Funky nesta altura é aquele sentido intangível de uma comunidade que se exprime através da sua música. E isto não no sentido de contestação social do Grime, mas antes numa predilecção descomplexada por temas do dia-a-dia, e num diálogo constante entre faixas, DJs e artistas. O sonho apaixonado de Kyla em “Do You Mind” insere-se tão bem nesta teoria como a Guerra dos Sexos que dá força a “Boy Does Nothing” de Alesha Dixon e “How Very Dare You” de Sticky e Sim Simi (num teatrinho cuja linguagem pode ser traçada tanto aos velhos duelos do Soul sulista dos anos 60 como à tradição “revista à inglesa” do Music Hall.)

Igualmente importante neste espírito jovem e imprevisível é uma tolerância por gimmicks que dá azo tanto a instrumentais brutais criados em torno de instrumentos específicos (o xilofone em “Inflation” de Crazy Cousins, o cello em “Russian Roulette” de Attacca Pesante) como a inúmeras faixas de instrução de dança, a começar pela imortal “Head, Shoulders, Knees & Toes” de K.I.G. Interessante é ainda uma certa abordagem cómica de afrocentrismo: “African Warrior”, de Donaeo, é acima de tudo uma metáfora ordinária, mas o entusiasmo do vocalista permite também imaginar a canção como o grito divertido de putos a jogar “aos zulus”; “Bongo Jam”, de Crazy Cousins, oferece um cenário tropical cartoonesco, com o vocalista a entoar “somtimes I get up early in the morning/to play my con con congo!” A inocência, o entusiasmo, o sentido de humor – tudo isto revela uma cena activa, vital.

Mas não é só de faixas vocais e bangers acessíveis que vive o UK Funky: produtores como Roska e Apple (criador dos numerosos instrumentais “Mr.Bean”) estão na extremidade mais abstracta do género, uma lembrança que o 2step não era só “Flowers” e “Sweet Like Chocolate”, e que para além das rimas no Grime também havia os instrumentais do Eski Beat. Refrescante nisto é ver que os instrumentais dissonantes e agressivos de Apple não se encontram num niche marginal do estilo, mas são aceites e adorados pela comunidade, inseridos em mixes de música doce e vocal como se nada fosse. Também isto é Carnaval!

E é no formato mix que o estilo melhor se desabrocha: o que pode soar demasiado limpinho ou pouco inspirado em separado ganha um momentum irresistível quando colocado no contexto dum set. Marcus Nasty, com o seu programa na Rinse FM, é a maior voz do movimento: anteriormente conhecido como membro da Nasty Crew (que também incluía Kano), o DJ é agora um dos muitos refugiados do Grime que encontraram no UK Funky uma nova vida criativa: nisto, ele é semelhante a artistas como Seany B (ex-More Fire Crew), Kode9 (um dos grandes do Dubstep, agora investido quase totalmente em UK Funky) e até veteranos do 2step como Sticky e Wookie. Para além de Nasty, outros DJs que se destacam são Mark 10, Footloose (com um som mais influenciado pelo House americano) e Cooly G (cujo estilo soturno faz a ponte para o Dubstep.) Quanto ao próprio Nasty, o seu trabalho é frenético, apostando em instrumentais e MCs convidados (importante notar que o UK Funky representa uma diminuição do papel do MC – a maioria dos que trabalham no estilo lmitam-se a alguns versos “de praxe” que inserem em qualquer momento desejado.)

O interesse por parte do contingente Grime não é recebido sem reservas, no entanto: afinal de contas, o UK Funky surgiu em grande parte como alternativa ao cenário saturado e frustrante desse estilo. O medo que o elemento violento do Grime penetre no Funky é constante – muitas das noites UK Funky exigem um dress code que proíbe chapéus, hoodies e outros tipos de urban wear. Se parte do problema é a possibilidade do bailarico adolescente do UK Funky se transformar na atmosfera “quatro gajos colados à parede” do Grime, também a nível musical a confluência dos estilos pode causar perigo; teme-se que o Grime retire a vertente feminina, sedutora da música.

Uma situação semelhante ocorre com o Dubstep: criativamente morto quase por completo, muitos são os adeptos do estilo que agora transferem as suas lealdades para o UK Funky. Mas o risco é que o notório snobbismo do Dubstep crie divisões dentro da música: quem alinha nos tons sombrios de Roska ou Cooly G não entende imediatamente a grandeza Pop dos Crazy Cousins ou o lirismo inocente de Lemar. De facto, já existe uma tentativa de demarcar o Funky mais influenciado pelo Dubstep, sob o nome (francamente hediondo) de “Funkstep”.

No entanto, talvez o maior receio que abalou a comunidade UK Funky nos últimos tempos seguiu-se ao sucesso estrondoso de duas faixas: “Head, Shoulders, Knees & Toes” de K.I.G. e “Tribal Skank” de Fr3e, duas faixas acompanhadas pelas suas próprias danças. Essa malha inspirou um número surpreendente de novas danças, sempre acompanhadas de novas faixas, muitas vezes produzidas por artistas falhados sedentos de criar um estrondo. Um sinal talvez de que a música urbana britânica não perdeu por completo a sua fascinação com o Hip-Hop americano, no qual se tem feito swagger surfing, pop lock & dropping e o ocasional supermanning dat hoe como se não houvesse amanhã, para grande consternação dos MCs mais velhos que vêem esta música de dança como uma aberração.

Skepta, numa remistura de “Watching My Rolex” de Wiley intitulada “Rolex Sweep”, avisa “Soulja Boy can’t dance like me/Michael Jackson can’t dance like me”, reforçando a ligação aos E.U.A. enquanto demonstra uma dança de ponteiros de relógio no teledisco. “Rolex Sweep” é um bom disco, mas o dilúvio que se seguiu a “Head, Shoulders, Knees & Toes” e “Tribal Skank” foi tamanho e com tão pouco controle de qualidade que o próprio Marcus Nasty notou em público a sua aversão à tendência.

No Verão deste ano, assistimos à primeira grande compilação do estilo: “This Is UK Funky House, Vol.1”, misturado pelos Crazy Cousins e, bizarramente, com o selo da Rhino Records (editora conhecida principalmente pelo seu bom trabalho em reedições de Soul e Classic Rock) apresenta todos os maiores clássicos do estilo. A Ministry Of Sound seguiu com “The Sound Of UK Funky”, uma colectânea de três discos misturada por Pioneer, Footloose e Supa D, enquanto que a série “Rinse” dá aos DJs de Funky uma possibilidade de publicarem sets sem grande tentativa de categorização. Enquanto que a procura por um verdadeiro êxito crossover aquece, e até o cómico Harry Hill cantarola “Bongo Jam” na televisão, crescem as esperanças e os receios. E enquanto isso, em programas de rádio pirata e mixes avulsos, a música continua a evoluir, imparável e imparavelmente londrina. Time to get funky!

Recomendações:
“This Is UK Funky House Vol.1” (Rhino/WMTV)
“The Sound Of UK Funky” (Ministry Of Sound)
“Geeneus, Vol.1”, Geeneus (Rinse)



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