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Desperate Optimists

O casal irlandês esteve em Portugal a convite do IndieLisboa e aproveitámos a oportunidade para conversar com eles. Conheçam o optimismo cívico de Christine Molloy e Joe Lawlor.

Christine Molloy e Joe Lawlor formam a dupla de realizadores Desperate Optimists. O simpático casal irlandês esteve presente no Indie Lisboa deste ano, onde apresentaram a sua primeira longa-metragem, “Helen”, inserida na competição de cinema internacional, e “Civic Life Project”, um conjunto de curtas-metragens filmadas com um só tracking-shot, sem cortes, onde os actores são habitantes de bairros ou pequenas comunidades.

Enquanto a filha Malia, de 6 anos, desenhava uma casa com lápis de cor, o casal falou-nos das suas raízes teatrais, do seu projecto de “cinema comunitário” e do caos de realizar um filme numa só tarde sem actores profissionais.

RDB: Sei que começaram a vossa carreira no teatro. Como deram o passo para o cinema?

Joe Lawlor (JL) – Bem, começamos há 20 anos a fazer teatro comunitário e a pouco e pouco começámos a usar pequenos filmes nas actuações ao vivo, até que a certa altura passou quase tudo a ser pré-gravado. A partir daí decidimos dedicarmo-nos apenas a realizar curtas.

Talvez uma das perguntas que ouvem mais frequentemente: como surgiu o nome “Desperate Optimists”?

JL – Quando formámos a nossa companhia de teatro tivemos que escolher um nome. Foi um processo semelhante ao de escolher o nome de uma banda, de uma forma ou de outra o nome que se escolhe soa sempre um pouco mal. De qualquer forma acabámos por gostar deste pela ironia e o duplo sentido. Na Irlanda “desperate” pode também significar “mau”, por isso é como se fossemos maus a ser optimistas. É uma inside joke irlandesa.

Quando deixamos o teatro, há cerca de 12 anos, no final dos 90s, aproveitámos o nome para a nossa produtora. As pessoas costumam-se rir, por vezes, quando o nome surge no ecrã… provavelmente é a única vez que se riem durante todo o filme, para dizer a verdade (risos).

Como descreveriam o conceito do “Civic Life Project”?

JL – Podemos definir como “cinema comunitário”. É uma forma de usar as ferramentas cinematográficas para começar um diálogo com pessoas nas suas comunidades locais, para se criar alguma magia cinematográfica. Normalmente trabalhamos com comunidades pobres. Começamos por estabelecer um diálogo com as comunidades para perceber o que elas querem filmar. Em média esse processo demora sensivelmente um mês.

Christine Molloy (CM) – Os filmes são depois filmados num só dia. Temos a manhã para ensaiar e a tarde para filmar. É uma atmosfera bastante caótica, cheia de imprevistos, como a situação atmosférica, se os actores aparecem ou não, se aparece mais gente do que o esperado… Algumas coisas que fazemos acabam por funcionar e outras nem por isso. Temos que filmar sempre com uma mente muito aberta. Temos sempre uma estrutura, mas não muito rígida. Normalmente filmamos apenas três takes. É muito precário e exige muita coragem, porque se as filmagens forem um fracasso, são um fracasso muito caro. Apesar de o orçamento ser sempre reduzido, é sempre muito dinheiro. Mas mesmo com esse caos eu e o Joe conseguimos manter o sangue frio e a concentração, porque já percebemos o processo.

Alguma curta que tenha sido um fracasso total?

JL – Não, no final as coisas correm sempre bem de uma maneira ou de outra, e ficamos bastante satisfeitos com o resultado. Em alguns aspectos, sentimos que alguns dos nossos fracassos artísticos foram enormes sucessos em termos sociais. Como são projectos artísticos comunitários, projectos sociais com comunidades locais, parte da piada é as pessoas irem ao cinema mais próximo e verem as suas caras no grande ecrã, coisa que é raro acontecer. Por isso são ocasiões especiais.

Em alguns filmes podes pensar que fomos demasiado ambiciosos, que não tivemos tempo suficiente para fazer aquilo como devia ser. Mas tentamos sempre fazer algo mais complexo de curta para curta. Assim, quando decidimos realizar “Helen” tinhamos uma boa ideia de como uma longa-metragem poderia funcionar.

Como decidiram avançar para esse projecto?

CMFoi quase por acaso. Tinhamos recebido quatro convites de quatro organizações locais para realizarmos mais curtas-metragens. No entanto, sentimos que o timing era perfeito, que estavamos prontos para realizar uma longa-metragem, e decidimos convencer essas quatro organizações a reunirem os seus recursos.

Depois do teatro, de curtas e longas-metragens, vídeos feitos especialmente para a Internet, que outro meio pretendem ainda explorar?

JL – Bem, o meio que sempre amamos foi o cinema. Recentemente li uma entrevista com o escritor Don Delillo em que ele dizia que, quando ele e outros escritores se encontravam, nunca discutiam livros mas sim cinema. Acho que é isso que acontece com a maioria das pessoas. Todo o nosso trabalho de teatro comunitário em Dublin e tudo o resto fez parte do longo percurso até chegarmos ao que amamos. Tem sido um processo lento, mas, não querendo sugerir que estamos a esse nível, muitos realizadores conceituados fizeram o seu primeiro filme com 40 anos. Às vezes é bom demorar este tempo, ir pelo caminho menos percorrido para chegarmos aonde queremos. Por isso, enquanto pudermos fazer filmes, vamos continuar a fazê-los.

Algum projecto já em curso?

CM – Estamos agora nos primeiros passos de produção da nossa segunda longa-metragem, “Mr Tom”. Ainda só escrevemos alguns rascunhos do argumento que iremos apresentar aos nossos financiadores, mas tem sido um processo interessante, porque normalmente escrever é a última coisa que fazemos antes de começar a filmar. Esta é uma forma mais convencional de encontrar financiadores para os nossos projectos. Vemo-nos principalmente como realizadores, mesmo quando escrevemos estamos a pensar como realizadores. Mas nesta fase, quem nos vai financiar ainda não está a pensar no trabalho do realizador, só no argumento.

Gostaríamos de começar a filmar ainda este ano, mas não sabemos se será possível.



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