rdb_edgarpera_header

Edgar Pêra

Dimensões ornamentadas com cores primárias ao estilo duma vida underground.

No final de 2012 a Cinemateca de Lisboa recebeu o irreverente cineasta português Edgar Pêra para uma sessão múltipla com duração descontrolada de visionamento sensorial moderado. O cinema português está vivo e este é um realizador a seguir; os seus filmes reflectem e exploram, de certa forma, a realidade de Portugal.

Exibiram-se “Who is the master who makes the grass green”, “Manual de Evasão LX” e material inédito deste último, contando com a presença do realizador para alguns esclarecimentos.

Edgar Pêra apresenta um espírito inconformado e provocador; vem destruir tradições e crenças estabelecidas. Famoso pelos seus filmes neuro-punks, videoclips e Banda Desenhada, em 1990 estreou a sua primeira curta-metragem – “Reproduta Interdita” no Fantasporto. É considerado um explorador de todos os materiais, desde o vídeo analógico e digital, às super 8, 16mm e 35mm.

O trabalho deste cineasta independente tem um espírito suficientemente livre para seguir várias linhas. Ainda assim, mantém uma forte identidade e estamos perante obras que se afastam do cinema comercial com doses importantes de poesia, provocação, espontaneidade e psicadelismo.

“LX94” foi o resultado de uma encomenda para Lisboa 94- Capital Europeia da Cultura, filmado com uma 35 mm, onde a cidade de Lisboa é o cenário escolhido. Surgem locais como a Tapada da Ajuda ou frente-rio do Tejo, ideias sobre o tempo são exploradas por filósofos e teóricos como Terence McKenna, Rudy Rucker e Robert Anton Wilson. A percepção do tempo é diferente para cada pessoa e depende da sua situação envolvente. A viagem é sugerida e conseguida através de drogas psicadélicas, abrem-se as portas da percepção, partir e voltar, ou não, em tempo indefinido num mundo paralelo e perpendicular onde habitam cientistas ousados que nos convidam a uma simpática tertúlia transversal. Este filme é uma investigação trans-temporal, uma experimentação mágica onde Edgar Pêra pinta e risca directamente a película com tons azuis, verdes e roxos, criando efeitos alucinogénios que nos confundem no tempo e no espaço. Um trabalho minucioso, feito fotograma a fotograma, onde o resultado é no mínimo estimulante e psicótico. No fim, na fábrica do tempo os operários cantam juntos o nostálgico “Oh tempo volta pra trás/ Traz-me tudo o que eu perdi/ Tem pena e dá-me a vida, A vida que eu já vivi” de Tony de Matos. O elenco está formado por Margarida Marinho, José Wallenstein, Anabela Teixeira, Ana Bustorff, João Reis Miguel Borges, Terence Mckenna, entre outros.

“Who Is The Master Who Makes The Grass Green?” Uma cine-aula de 7´ do Mestre Bob que nos elucida sobre os milhões de estímulos que recebemos do mundo e que apenas uma ínfima porção é retida. A partir daí criamos a nossa realidade, resta saber o que é a realidade, ou a nossa própria realidade, e até onde é válida. Depois do visionamento deste filme cada um extrairá as suas próprias conclusões. A frase: Who is the master who makes the grass green? É repetida vezes sem conta, numa voz máscula, poderosa e confiante. The Master será o tempo ou o xamã que vê no escuro? Sabemos que o tempo é um brutamontes que destrói tudo o que lhe aparece à frente sem dó nem piedade, é como um caterpillar no meio de uma obra. Nesta curta-metragem, Edgar Pêra é o responsável pela realização, argumento, produção e montagem, a prova viva que é um realizador multifacetado e experimentalista.

Ao público resta sentir o conceito dos vários filmes de Edgar Pêra– “One Way or Another (Reflexions of a Psykokiller)”, “O Barão”, “Punk is not Daddy”, “Movimentos Perpétuos: Cine-Tributo a Carlos Paredes”, “Rio Turvo”, “Oito,Oito”. A mente aberta é requerida, num descontrolo perdido nos paraísos artificiais do tempo e do espaço, dimensões ornamentadas com cores primárias ao estilo de uma vida underground.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This