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Indie 2011 – Rescaldo

Mais uma brilhante edição do festival de cinema independente mais importante de Portugal onde o Documentário foi rei. Uma edição que contou com menos apoios e, infelizmente, menos espectadores, mas não por culpa da excelente programação.

Se no ano passado o Indie alcançou um recorde de espectadores, este ano a coisa ficou um pouco aquém das expectativas. Não se compreende, se calhar foi a onda de calor que se fez sentir e levou muita gente às praias. O que essas pessoas ganharam em raios ultra-violeta perderam em cultura e contribuíram para uma crise maior que essa outra do dinheiro: a crise de analfabetismo cultural. Mas a culpa é deles e não do IndieLisboa, um festival de uma importância além-fronteiras que nesta edição provou, mais uma vez, porque é que não podemos viver sem ele.

Aparte esse aspecto negativo, tudo correu de forma soberba no Indie, à excepção de algum snobismo por parte da Cinemateca na aquisição de bilhetes para acreditações de imprensa, mas esse é apenas um pormenor que não afecta o desempenho do nosso Museu do Cinema nem do festival em si. As sessões foram todas imprescindíveis e este é o nosso destaque.

O novo Teatro do Bairro Alto albergou algumas sessões do Indie e comprovou que este Bairro é mais que um sítio para pousar copos. Este novo espaço é agradável e bem enquadrado com a fauna envolvente. Albergou também as festas oficiais do Indie. Um espaço mutante que a Rua de Baixo teve oportunidade de reportar após a sua inauguração. O pólo São Jorge – Culturgest manteve-se, assim como o excelente catálogo. A inclusão da Cinemateca foi uma boa aposta para fechar o ciclo, praticamente todas as salas encontravam-se a distâncias muito convidativas. As sessões também.

Na secção de competição Internacional foram inúmeras as ante-estreias, tendo a longa-metragem documental “The Ballad of Genesis and Lady Jaye” o justo vencedor, uma homenagem ao amor entre Genesis P-Orridge (dos Throbbing Gristle e Psychic TV) e Lady Jaye. Genesis submeteu-se a várias cirurgias de forma a assemelhar-se fisicamente ao amor da sua vida. Um documentário maior que a vida que relata uma forma incondicional de amar, uma devoção incondicional.

A longa-metragem Portuguesa vencedora foi “Linha Vermelha”, de José Filipe Costa, sobre a ocupação da herdade da Torre Bela em 1975. O documentário “Eden” de Daniel Blaufuks também foi galardoado pelo prémio TAP para Melhor Documentário de Longa Metragem Português. Premiados também foram os filmes “O Que Há de Novo no Amor” (Prémio TAP), “Liberdade”, “Insert”, “Alvorada Vermelha”, e “Swans”, estes já no capítulo de curtas-metragens.

Nos prémios técnicos, destaque para o estilizado regresso de Edgar Pêra com “O Barão”, uma adaptação da obra mágica de Branquinho da Fonseca, um exercício a preto-e-branco contado com muitos recursos estilísticos, iluminação de estúdio, dissolves, zooms e planos apertados como se de um sonho se tratasse. Excelente desempenho para Nuno Melo (nunca o vimos assim) e para a banda sonora a cargo dos (também actores) As Vozes da Rádio. Edgar Pêra recupera o imaginário do Estado Novo e da identidade Portuguesa à sua maneira, com artifícios muito próprios para contar esta estranha e negra estória. Prémio de melhor fotografia para Luís Branquinho.

Também no capítulo de melhor fotografia sagraram-se os filmes “América” (fotografia de Carlos Lopes “Cácá”) e “Wakasa”, curta-metragem, com fotografia de Takashi Sugimoto.

Mas nem só de competição vive o Indie. O Herói Independente deste ano foi Júlio Bressane, importante dissidente Brasileiro, um verdadeiro Herói Independente que faz magia e ao mesmo tempo questiona muitas convenções do Cinema. Oportunidade para ver uma obra muito esquecida por cá, especialmente no que toca a edições em DVD. Todos os filmes exibidos são tão peculiares que não vale a pena destacar só um; teríamos que escrever um livro inteiro.

Foram também exibidos alguns filmes que de uma forma ou de outra vão estrear por cá, como “Kaboom” de Gregg Araki que volta ao imaginário Queer Pop para contar uma estória com requintes de fantástico e ao mesmo tempo passear-se num universo jovem onde a sexualidade não tem limites nem pudor, com uma honestidade e alegria muito dignas. A maior falha do filme é não conseguir conciliar os dois mundos, o fantástico com o juvenil, e de se tornar propositadamente circense lá para o final, mas era esse o objectivo de Araki que, depois do brilhante “Misterious Skin”, passou a ser mais respeitado por cá.

“Essential Killing” do veterano Skolimovski foi a surpresa da edição. Protagonizado por um Vincent Gallo mudo, esta é a odisseia de um Talibã perseguido no meio do nada. Excelente fotografia, desempenho e um argumento que percorre os limites da sobrevivência com uma mestria nunca exagerada e que nos faz regressar à adrenalina mais pura. É um filme de um homem só contra o meio que o rodeia e é exímio nessa narrativa.

Menos inteligente é “Rubber” de Quentin Dupieux, ou Mr. Oizo. Aliás, até é bastante inteligente – passamos o filme todo a ser lembrados disso, mas a interessante premissa inicial vive só durante 15 minutos. O exploitation é o género a parodiar mas Dupieux faz-nos sofrer por isso com cenas que não colam umas com as outras e com um incessante snobismo que nos afasta da sensação de estar a ver um filme cujo protagonista é um pneu com vida própria e poderes telecinéticos. Sim, poderia ser uma machadada à antiga mas infelizmente é só um bom entretenimento.

Mas a grande surpresa da secção Observatório foi, sem dúvida, “Bummer Summer”. O filme realizado e interpretado pelo norte-mericano Zach Weintraub é um verdadeiro exercício de estilo e de orçamento. O filme é do mais Indie que se pode querer: sem meios nem orçamento, mas com um requinte estilístico e fotográfico que muitos tentam alcançar sem conseguir. Zach fê-lo logo à primeira, e a preto-e-branco. Grande surpresa.

Houve ainda oportunidade para espreitar a escola Le Fresnoy, um laboratório Francês de elevado grau de qualidade artística, de nos deliciarmos com bons documentários no IndieMusic e de ver boa animação para todas as idades no IndieJunior.

Mais que um festival, o Indie é um acontecimento e esta oitava edição provou que contra a corrente negativa que paira sobre a cultura, com sucessivos cortes nas artes e aposta das entidades na desinformação e no conteúdo de gosto duvidoso, há mais que espaço e vontade do público de ver bom cinema, independente e à margem. O IndieLisboa é o rosto mais visível da luta pela arte em Portugal e mal podemos esperar pela nona edição em 2012. Ate lá, fiquem atentos à programação do Teatro do Bairro que vai passar alguns dos filmes do festival, entre outras surpresas.



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