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Entrevista a Mogwai

Folk, futebol e pós-rock.

De passagem por Portugal, para um concerto único numa Aula Magna esgotada, os escoceses Mogwai não recusaram dois dedos de conversa com a Rua de Baixo momentos antes de subirem a palco. Coube a um dos fundadores da banda, o baixista Dominic Aitchison, encontrar-se connosco para responder a algumas questões. Sempre muito afável e com o seu sotaque carregado, a entrevista acabou por se transformar numa conversa informal sobre várias coisas, começando logo por um tema incontornável: o Celtic de Glasgow, o clube de futebol da capital escocesa do qual os membros da banda são apoiantes acérrimos (e que fazem questão de o demonstrar, ao nunca dispensarem os cachecóis verdes e brancos espalhados em cima do palco).

Se exceptuarmos essa rivalidade futebolística entre os principais clubes de Glasgow, o Celtic e o Rangers, a Escócia até é um país bastante calmo e sem grandes tradições de distúrbios ou grandes mexericos sensacionalistas. Não é por acaso que é um país com fortes ligações à música folk, desde o legado de Donovan até ao sadcore dos mais recentes Arab Strap. Então, no meio desde cenário algo idílico, como é que surgem as explosões sonoras dos Mogwai? Dominic explica que é “um pouco natural”, porque apesar de Glasgow ser uma cidade “algo isolada” e em que “sempre houve música folk”, também é verdade que sempre houve “rock, bandas de guitarras e, especialmente, gente que gosta de música”.

Glasgow, nos últimos anos, tem andado recorrentemente nas bocas do Mundo, ou melhor, nas bocas da crítica musical internacional. E esse não é um fenómeno isolado; mesmo antes do hype dos Franz Ferdinand, já haviam surgido bandas como os Belle and Sebastian ou os Sons and Daughters. Estando próximos desta espécie de boom da música escocesa, Dominic confessa que “é estranho” e não é uma coisa sobre a qual consiga “dar uma opinião de forma muito objectiva”. Para quem está de fora é sempre mais fácil analisar, até porque a “música sempre esteve lá e Glasgow é um sítio muito pequeno, onde toda a gente acaba por se conhecer”. Além disso, “não há muito para fazer na cidade, além do futebol, por isso ou entras para uma equipa de futebol ou formas uma banda”.

Pioneiros do pós-rock, sub-género característico por utilizar instrumentos tradicionais para propósitos pouco habituais no próprio rock, os Mogwai começaram por uma banda que descendia do shoegaze dos My Bloody Valentine e dos Jesus and the Mary Chain e que se propagava no rock sónico dos Sonic Youth ou no pós-punk dos Joy Division. Ao fim ao cabo, sempre foram uma banda de guitarras. No entanto, quase quinze anos depois, os Mogwai já são como que uma instituição do género e, por isso, não é de admirar que acabem por serem amiúde referenciados por novas bandas. Dominic acha-o “esquisito”, mas igualmente “lisonjeador”, porque se “as pessoas mencionam o nosso nome é porque gostam da nossa música e estão satisfeitos”.

E será que Dominic se lembra da primeira vez que tocaram em Portugal? “Claro que sim. Não correu muito bem. As pessoas atiraram-nos moedas e era um público um pouco hostil. Mas não é um grande problema que as pessoas não tenham gostado. Nós fizemos o nosso melhor e tivemos um fim-de-semana excelente”. Mas será que têm noção que esse concerto foi uma espécie de revelação para a outra metade do público, o mesmo que agora, dez anos depois desse concerto no festival Paredes de Coura, esgotou a Aula Magna? “Revelação, a sério?”, ri-se Dominic.

“The hawk is howling” é o sexto e o mais recente álbum de originais da banda escocesa. Dominic diz que “não tem muito jeito” para falar dessas coisas e para descrever a sua música, mas mesmo assim vai adiantando que é um disco que nasceu de “um processo de criação muito difícil”, um processo “conjunto”, que resulta do “crescimento da banda” ao longo destes anos. Mais uma vez, o disco é exclusivamente instrumental e Dominic confirma que a banda “não sente necessidade de se expressar através das letras”, até porque escrever “bem e de forma original não é fácil”. Mas mais importante que isso tudo, “é que não é preciso ter letra para se perceber uma canção de amor”, por exemplo. Perante isto, a questão que subsiste é uma: como baptizam as canções? Explicação mais simples de todas – “normalmente alguém diz algo bastante idiota, a gente ri-se imenso e depois fica como o nome da música”. Ficam os nomes e fica a música, claro.



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