“Dans l’oeil du Judas”
Uma linguagem universal
Em tempos como os que atravessamos, não devemos deixar de louvar quem repensa, muda, transforma, reinventa festivais que tentam sobreviver em águas agitadas e que já fazem, ou começam a fazer, parte dos nossos hábitos culturais. O FIMFA é um deles.
“Dans l’œil du Judas”, do Théâtre du Rugissant, esteve em cena no S. Luiz Teatro Municipal, nos dias 11 e 12 de Maio, e apresentou-nos uma história comovente, envolvida por música ao vivo e uma cenografia impressionante.
Giacomo chega ao fim da vida lamentando apenas não ter voltado a ver o seu amor de infância, Natalia, e pede à Morte que o veio buscar que não o leve naquele momento pois espera reencontrar o seu amor. Entretanto vai contando como tudo aconteceu… Olgerson é um estrangeiro que chega para viver com a filha Natalia no prédio onde Giacomo mora. Não tem um francês perfeito, não encaixa na cultura nem nos hábitos dos restantes inquilinos. Os boatos surgem facilmente e como uma bola de neve: as pequenas diferenças, os falsos rumores, transformam-se em algo de dimensões bem maiores e a tragédia acontece. Num plano orquestrado pelos habitantes do prédio, Olgerson é alvo de uma emboscada e morre, Natalia é levada para um orfanato, Giacomo vai viver com os pais, tripulantes de um barco, e os dois não voltam a encontrar-se.
Uma história contada com música, coros, percussão e piano, sobretudo, num prédio de seis apartamentos, onde diversas marionetas com a sua própria história e personalidade viviam. Um edifício rodeado de jogos de luz e sombras, apenas com parte das fachadas, estando maioritariamente a descoberto para os espectadores seguirem a história e dois muros que ajudavam a realçar o formato de olho que o cenário fazia. O olho de Judas, o olho do traidor e o olho através do qual o público assistia ao espectáculo e a um crime.
De lamentar a legendagem, que por vezes distraía mais do que ajudava. A maioria das vezes dessincronizada, pautou sobretudo pela ausência, o que impediu uma compreensão total de pequenos momentos e acontecimentos durante o espectáculo, uma vez que com o calão, a rapidez dos diálogos, e a sobreposição de falas, só um perito em francês conseguiria assimilar todo o sentido oculto de algumas cenas. Havendo a indicação de que os idiomas seriam o Francês e o Português e de que o espectáculo seria para maiores de 10 anos, esperava-se pelo menos que o problema conseguisse ser resolvido ainda durante a sessão, o que não aconteceu.
Ainda assim há linguagens que são universais, e a mensagem de um amor perdido, destruído pelo preconceito, não deixou de chegar a quem assistia por causa da barreira linguística.
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