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Fogo do Vento estreia em Portugal a 21 de maio

O filme multipremiado de Marta Mateus, eleito pelo The New Yorker como um dos 20 melhores de 2025, chega finalmente às salas de cinema nacionais.

Fogo do Vento, a primeira longa-metragem de Marta Mateus, estreia nos cinemas portugueses no dia 21 de maio de 2026. O filme, inspirado nas memórias e nas gentes do Alentejo, percorreu os mais reputados festivais internacionais e entrou no circuito comercial dos Estados Unidos da América, Argentina e Uruguai. Reconhecido pela crítica especializada mundial, foi incluído pela conceituada revista The New Yorker na lista dos 20 melhores filmes estreados em 2025. Rodado ao longo de quatro anos e apresentado na Competição Internacional do Festival de Locarno, o filme é uma obra coral que cruza memória, onírico e tempos históricos numa mesma trama de realidade.

Uma viagem ao coração do Alentejo

O ponto de partida de Fogo do Vento é simples e poderoso: a dura jornada da vindima. Soraia, uma jovem rapariga, corta-se. O sangue mistura-se com o vinho. Um touro negro segue-lhe o rasto. No regresso a casa, os trabalhadores são forçados a subir aos sobreiros para se porem a salvo. É nas copas das árvores que se forma uma comunidade suspensa no tempo e no espaço — um espaço de partilha, de igualdade, de histórias de guerra e paz, de amores e de dores.

Este é um filme que cruza a memória coletiva com o onírico, tecendo diferentes camadas da história portuguesa — desde as trincheiras da Primeira Grande Guerra até às campanhas coloniais do Estado Novo — com a vida quotidiana das aldeias alentejanas. Fogo do Vento é, nas palavras da própria cineasta, um filme onde “se partilha o pão e o vinho, entre gerações e os nossos fantasmas”.

A história pessoal de Marta Mateus está entrelaçada com a narrativa: é o seu próprio filho que dá vida ao papel do avô, João Encarnação, que ainda muito jovem foi forçado a combater na Primeira Grande Guerra. Uma escolha que transforma o filme numa confissão íntima tanto quanto num retrato de uma nação.

Elenco de não-profissionais e uma produção artesanal

Os protagonistas de Fogo do Vento são na sua maioria atores e atrizes não profissionais, habitantes do concelho de Estremoz. O elenco reúne trabalhadoras e trabalhadores rurais, membros da comunidade cigana, moradores do Bairro das Quintinhas, amigos, artistas e familiares da realizadora — uma família alargada que atravessa gerações, origens e contextos socioculturais.

Vários destes rostos já tinham trabalhado com Marta Mateus em Farpões Baldios (2017), a sua aclamada curta-metragem estreada na Quinzaine des Cinéastes do Festival de Cannes. Esta continuidade humana confere ao novo filme uma autenticidade rara, em que o cinema e a vida se confundem de forma quase indistinguível.

A produção foi tão exigente quanto intimista. Rodado ao longo de quatro anos, com preparação que antecedeu e atravessou a pandemia, o processo levou Marta Mateus a estudar a incidência da luz em cada árvore e a ampliar progressivamente o argumento. A cineasta acabou por assumir ela própria a câmara, tornando-se codirectora de fotografia ao lado de Vítor Carvalho, e trabalhou com uma equipa muito reduzida. A montagem ficou a cargo de Claire Atherton.

Percurso internacional e distinções

Desde a estreia mundial em Locarno, Fogo do Vento percorreu os mais importantes festivais de cinema do mundo: Nova Iorque, BFI de Londres, Tóquio, Viena, Hamburgo, Valdivia e Jeonju são apenas algumas das paragens de um percurso excecional. O filme entrou também em circuito comercial nos Estados Unidos, Argentina e Uruguai, e tem estreia prevista na Coreia do Sul no próximo verão.

As distinções acumuladas ao longo deste percurso são eloquentes: Prémio FIPRESCI no Festival de Gijón (Espanha), Melhor Primeiro Filme no Festival de Busto Arsizio (Itália), Prémio Especial do Júri no Avant-Garde Film Festival de Atenas (Grécia), Melhor Realização no Festival Caminhos do Cinema Português, e o Grand Jury Prize no Most — Festival Internacional de Cinema del Vi.

O reconhecimento da crítica culminou na inclusão na lista dos 20 melhores filmes de 2025 pela revista The New Yorker, uma das publicações culturais mais influentes do mundo. O filme integrou ainda programações de cinematecas e universidades de prestígio, incluindo Harvard, Brown, Yale, Princeton, Chicago, Stanford e Berkeley, onde Marta Mateus foi convidada a programar e a lecionar.

Marta Mateus, uma voz singular do cinema português

Nascida em 1984, Marta Mateus estudou Filosofia, Desenho, Fotografia, Música e Teatro antes de se dedicar plenamente ao cinema. Após Farpões Baldios, que lançou o seu nome no panorama internacional, fundou em 2018 a produtora Clarão Companhia, em parceria com o cineasta Pedro Costa. É através desta estrutura que produz os seus próprios projetos e apoia obras de outros autores, como As Filhas do Fogo (2023), de Pedro Costa, estreado na Seleção Oficial do Festival de Cannes.

A ideia para Fogo do Vento nasceu de uma imagem: um touro negro que surgiu na sua mente. O que começou por ser concebido como curta-metragem foi crescendo organicamente, à medida que a cineasta mergulhava no território, nas pessoas e nas histórias. É essa entrega sem restrições que marca o seu método de trabalho e que se sente em cada plano do filme.

Fogo do Vento é uma coprodução da Clarão Companhia com a Casa Azul Films e Les Films d'Ici.

Com a chegada às salas portuguesas a 21 de maio, Fogo do Vento oferece ao público nacional a oportunidade de descobrir — ou reencontrar — uma das obras mais singulares do cinema português contemporâneo. Um filme que nos convida a entrar lentamente num universo onde o tempo se dilata, as memórias falam e a paisagem alentejana se transforma em cenário de uma história universal. Para quem procura cinema que resiste ao esquecimento, esta é uma estreia que não deve ser perdida.



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