Força Maior

Força Maior

Depois de uma catástrofe que não aconteceu


Um dos maiores dilemas para todos os escritores e argumentistas é encontrar um acontecimento perfeito que desencadeie o enredo da história. No caso da brilhante conquista cinematográfica do sueco Ruben Östlund, Força Maior, essa catálise é uma avalanche. Estará controlada? Chegará até nós? Vamos morrer? É impossível compreender aquilo que passa pela mente de quem se encontra perante uma situação semelhante, e este filme prima pela forma como nos mostra as cicatrizes deixadas por uma catástrofe que não chegou a acontecer.

Exatamente. Não passou de um susto. O pai Thomas (Johannes Kuhnke), a mãe Ebba (Lisa Loven Kongsli), e os filhos Harry (Vincent Wettergren) e Vera (Clara Wettergren) levaram com pó e neve, mas saíram sem um arranhão daquilo que podia ter-se tornado na morte de todos eles. Ou seja, mediante o que podia ter acontecido, o maior problema prende-se à reação totalmente instintiva de Thomas, que tenta fugir o mais rapidamente possível, sem pensar na mulher e nos filhos.

Enquanto a poeira assenta e os ânimos acalmam, o pai aproxima-se da família, tentando brincar com o susto que já passou, e a nós, espetadores, cabe-nos assistir em desconforto a uma das primeiras cenas extremamente constrangedoras de silêncio.

Na verdade, o filme está cheio delas. Ebba, além de não conseguir compreender a atitude de Thomas, não compreende a razão pela qual ele se recusa a assumir a verdade dos acontecimentos – ou seja, que se esqueceu da família e que tentou salvar-se a si próprio – e isto proporciona diversos momentos feitos de uma realização gelada. E talvez um dos motivos pelo qual o filme resulta tão bem, seja o facto de nenhum de nós estar preparado para lidar com uma questão como estas.

Até que ponto podemos culpar Tom, que se reconhece, mais tarde, como uma vítima dos seus instintos mais primários? Alguém que, tal como qualquer um de nós, habitantes da dura realidade, não se rege pelas construções morais, sociais e bastante narrativas do herói implacável nas situações difíceis. E até que ponto podemos não dar razão a Ebba, que seguiu o instinto protetor dos filhos? Qualquer lado da questão é uma agressiva dor de cabeça, mas ver estas personagens debaterem-se com isto durante duas horas de puro cinema, e ao som do Verão de Vivaldi, é, no mínimo, gratificante.

Embora fria, esta obra não deixa de ter o seu lado mais negro de comédia sueca. Assistir a uma conversa entre uma mãe conservadora e uma mãe adepta de one night stands é um momento perfeito para os amantes de construção narrativa. Não menos hilariante é o momento em que esta família, imersa no caos, recebe um casal amigo, que inesperadamente se encontra no papel do ‘terapeuta’.

Força Maior foi reconhecido de imediato como uma referência tão cinematográfica quanto filosófica, tendo sido aclamado pelo júri de Cannes com o prémio de Un Certain Regard.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This