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“César deve morrer”

“Desde que descobri a arte, esta cela tornou-se numa prisão”

Uma sala de teatro na prisão de Rebibbia em Roma. Uma encenação de “Júlio César” de Shakespeare chega ao fim do meio de grandes aplausos. As luzes baixam e os actores, que se transformam em reclusos novamente, são acompanhados às suas celas. Somos levados aos seis meses anteriores à peça, onde o director da prisão e o encenador explicam aos prisioneiros o novo projecto. A linguagem universal de Shakespeare ajuda os prisioneiros/actores a identificarem-se com as suas personagens. Contudo, o fascínio e o orgulho pela peça nem sempre libertam os prisioneiros da raiva de estarem encarcerados. Os seus confrontos coléricos põem a peça em perigo. Na mui antecipada e temida noite de estreia, os espectadores são em grande número e de várias origens: prisioneiros, actores, estudantes, encenadores.

O projecto aconteceu por acaso, “graças a uma conversa telefónica com uma grande amiga nossa – estabelecemos contacto com um universo que só conhecíamos através dos filmes americanos, apesar de Rebibbia, uma prisão nos arredores de Roma, ser bastante diferente daquelas que víramos no ecrã”, afirmam Paolo e Vittorio Tavian. “No entanto, quando a visitámos pela primeira vez, o ambiente pesado de uma vida atrás das grades abriu alas à energia e à agitação de um acontecimento cultural e poético: os prisioneiros estavam a recitar alguns dos cantos de “Inferno” de Dante. Mais tarde, soubemos que eram presos da Ala de Alta Segurança, na sua maioria ligados ao crime organizado e condenados, na maior parte, a prisão perpétua. As suas interpretações instintivas eram instigadas pela necessidade dramática de contar a verdade e canalizadas pelo trabalho firme e regular do seu encenador “interno”, Fabio Cavalli.”

“Quando saímos de Rebibbia, percebemos imediatamente que queríamos saber mais acerca deles e da sua situação; fizemos, então, uma segunda visita e perguntámos-lhes se queriam trabalhar numa adaptação cinematográfica de Júlio César de William Shakespeare.”

Em relação aos actores, estes “são todos presos da Ala de Alta Segurança. Para sermos mais precisos, gostaríamos de acrescentar que o Salvatore “Zazà” Striano – que interpreta o papel de Bruto – já cumpriu a sua pena na prisão de Rebibbia. É agora um cidadão livre, depois de uma amnistia geral; o mesmo se aplica ao Estratão”.

Um ponto muito interessante no documentário é a parte das audições dos prisioneiros: apenas tinham que se identificar, como se estivessem a ser interrogados por agentes alfandegários, depois era pedido que se despeçam de um ente querido – da primeira vez, têm de mostrar sofrimento e, da segunda, raiva. “Neste caso, fizemos uma primeira escolha de actores e o Fabio Cavalli mostrou-nos as fotografias de alguns presos que tinha já seleccionado e que acabaram por ser escolhidos sem grande trabalho. Após algum tempo, chegámos à conclusão que para eles o filme poderia ser uma forma de lembrar às pessoas que vivem no exterior que eles estavam a levar as suas vidas no silêncio da prisão.”

Em relação à questão do porquê “Júlio César” de Shakespeare? A resposta é simples: “Nunca tivemos outra peça em mente.” Paolo e Vittorio Travian comentam ainda: “a nossa escolha surgiu da necessidade: os homens com quem queríamos trabalhar tinham um passado a ter em conta; um passado caracterizado por más acções, erros, ataques, crimes e relações estragadas. Daí termos de os confrontar com uma história igualmente poderosa, mas que vai numa direcção oposta.”

Todo o filme foi filmado, integralmente, em Rebibbia. “Passámos quatro semanas em Rebibbia: chegávamos de manhã e saíamos à noite, completamente esgotados, mas felizes e satisfeitos”. “Quanto à câmara, tivemos a liberdade de a levar para todo o lado: as várias alas, as escadas, os cubículos, o pátio, as celas, e a biblioteca. Com uma excepção: a zona de acesso interdito onde os prisioneiros que estão na solitária são mantidos em isolamento. Ninguém pode vê-los, nem nós. Só suspendíamos as filmagens quando os prisioneiros das outras alas tinham de passar pelos corredores para irem para o pátio ou à casa-de-banho, ou quando alguns dos nossos actores recebiam visitas dos familiares. Quando regressavam, estavam profundamente emocionados, comovidos, melancólicos ou zangados. Voltavam aos seus papéis mas o olhar parecia ir para outro lado, e perdiam a espontaneidade terna e selvagem das suas interpretações.”

E, como sempre, amizades e cumplicidades florescem, ao ponto de um dos guardas balbuciar para os cineastas: “Não se aproximem muito deles; tenho uma excelente relação com eles, e às vezes sinto piedade e compaixão, até amizade… Mas depois tenho de me lembrar de manter uma certa distância e pensar naqueles que sofreram e sofrem mais do que eles, ou seja, as vítimas e as suas famílias.” Isto é verdade, “no entanto, quando o filme chegou ao fim e tivemos de abandonar a prisão e os nossos actores, foi uma despedida dilacerante. Subindo as escadas de regresso à sua cela, o Cosimo Rega – Cássio – levantou os braços e gritou: “Paolo, Vittorio: de amanhã em diante, nada será igual!”.

Parte do filme é a preto-e-branco, isto porque, segundo os cineastas, “a cor é realista e o preto-e-branco é irrealista”. “Quando chegámos à prisão, sentimos que haveria o risco de caírmos num realismo televisivo e fugimos a isso usando o preto-e-branco que nos deu mais liberdade para inventar e filmar neste ambiente absurdo que era a prisão de Rebibbia. Ao usar o preto-e-branco, sentimo-nos livres para filmar numa cela onde Bruto repete o seu monólogo com sofrimento e paixão: “César deve morrer”. Optámos por imagens a preto-e-branco fortes e violentas que, no final, acabam por ganhar uma cor mágica no palco, enaltecendo a alegria furiosa dos prisioneiros espantados com o seu sucesso.“ Mas, além disso, “a escolha do preto-e-branco também se prende com razões narrativas: queríamos sublinhar a passagem do tempo.”

Um dos pontos fortes do filme é a sua forte musicalidade, “um dos dias fundamentais para os músicos foi o dia em que foram a Rebibbia durante a rodagem do filme. As filmagens estavam a correr sobre rodas, estávamos todos cheios de energia, e extremamente concentrados, mas, contudo, os músicos conseguiam vislumbrar as sombras do passado nos rostos e nos olhos dos prisioneiros”, afirmam os realizadores. “E, nesse dia, tomaram uma decisão: a música tinha de ser sparsa mas muito poderosa. Muito poucos instrumentos musicais: o saxofone com a sua doce melancolia; o oboé carregado de presságios; sons ríspidos, grosseiros e primitivos e, por fim, uma orquestra com instrumentos eléctricos e sintetizadores.”

 

“Cesare deve morire” / “Caesar must die” / “César deve Morrer” estreia no dia 1 de Novembro. Antes, dia 27 de Outubro, no Grande Audtório da Culturgest, este documentário irá encerrar “oficialmente” a 10ª edição do Doclisboa.



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