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Friends Bairro Alto

Onde se bebe a cultura. Rua da Rosa, 99.

O projecto é recente e nasce repleto de ideias frescas. Chama-se Friends Bairro Alto, situado numa das ruas mais calmas da selva Bairrista, a Rua da Rosa (ao número 99), e promete criar amizades com (e no) “velho bairro folião Lisboeta”.

A chamada de atenção é o primeiro passo para o sucesso de qualquer coisa nova, e aqui não falha. Com aspecto moderno e fresco em tons avermelhados, o Friends transparece através da sua fachada totalmente em vidro, atraindo a atenção de qualquer transeunte que suba a Rua da Rosa entre as 15h e as 02h. Dentro, o look avermelhado da sala exalta-se sob a iluminação pendente do tecto e brotando das paredes forradas de estantes repletas de uma vasta panóplia literária. O bar, as mesas e sofás espalhados pela sala desfrutam assim de um ambiente acolhedor e espacialmente amplo, ou seja, íntimo mas não sufocante. A primeira impressão consegue com sucesso a sua missão: levar o transeunte a ponderar um pit stop para um primeiro copo na noite.

O omnipresente e indispensável bar, sem o qual a noite não é noite. Não se inibe por trás do DJ ou escondido nalgum recôndito canto da sala. Antes pelo contrário, grande, central e bem visível, é quase difícil evitar a proposta implícita no olhar de um dos barmans que esfregam as mãos a cada movimento de “suspeita sede alcoólica”. Para além do mais, a expectativa que se cria é a de que “aqui sim, servem-se cocktails originais”, mas essa, porque nem tudo é possível a uma primeira vista, fica uma experiência adiada para futuras incursões explorativas com os “amigos do Bairro”.

Todavia, é a proposta do Friends que atrai a nossa atenção. São precisamente os livros espalhados pela sala a cobrir o papel de anfitriões do serão, capazes de conferir ao espaço uma originalidade precedida apenas lá para os lados de Braço de Prata. Aqui, porém, o conceito cresce e desenvolve-se em prole do usufruto e do interesse do público. Pretende-se que a leitura de um livro seja motivo de convívio, interacção social e – paradoxo dos paradoxos – festa, e para isso cria-se um universo microeconómico próprio dentro do Friends.

Para além de desfrutar livremente das linhas e linhas de texto no conforto dos divãs, o público é convidado a partilhar as suas relíquias literárias lá de casa com o Friends e os demais compinchas nocturnos que por ele passam. Em troca de um livro o prezado noctívago pode:

a) levar consigo para casa aquele velho romance que o salvou de uma valentíssima seca, numa daquelas noites, à espera de um daqueles amigos cuja pontualidade é um daqueles conceitos muito relativos, abstractos e de difícil compreensão;

b) adquirir a preço descontado um dos livros novos, causando assim uma excelente impressão na lindíssima donzela que, curiosa pela figura do prezado noctívago solitária e elegantemente concentrado na sua leitura, e a título medição imediata da sua potencial compatibilidade sentimental, resolveu testar o interesse intelectual do prezado noctívago num qualquer estudo sobre a moda e os hábitos vestuários nas cortes medievais na Península Ibérica recentemente publicado;

c) borrifar-se para o raio da gaja – “mais a mais, se esta, na primeira noite me deu já uma ensaboadela de moda e costumes medievais, devem-me esperar anos de seca e angústia antes de poder vislumbrar algo parecido a uma excelente noite de sexo em tempos modernos, que é, admitamo-lo, a razão última pela qual estou para aqui a falar com ela” –, recolocar o tal velho romance amarelado na estante – “que ainda por cima nem tinha assim tanto interesse e só peguei nele porque o raio do Zé me deixou mais uma vez pendurado à espera… ainda por cima se não fosse o gajo, não tinha levado com a gaja das modas medievais. Vou mas é curtir sozinho!”, dirigir-se ao bar e trocar esse velho legado literário lá de casa por um digníssimo gerador de alegria servido em copo cheio. Isso mesmo, aqui no Friends, os livros são também moeda de troca alcoólica; aqui no Friends, bebe-se a cultura.

A curiosidade estimula a intenção e o pensamento dispara-se por cenários, contextos e situações imagináveis apenas num espaço assim pensado e realizado. A ideia é sem dúvida originalmente deliciosa e só por isso o Friends faz já jus ao próprio nome. O Bairro Alto merecia algo assim.



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