Mousse

Mousse por Ricardo Vasconcelos.

Ricardo Vasconcelos veio de Moçambique para Portugal com 9 anos. Estávamos nós já na segunda metade dos anos 70, no pós-revolução. Quando chegou, encontrou os seus novos colegas estudantis lusófonos aparentemente deprimidos. Faltava alegria e calor humano nas suas expressões e manifestações. Para ele, não fazia sentido essa forma de estar. Em África aprendeu a ser diferente e, apesar das desilusões, não mais prescindiu desses ensinamentos. E ainda bem, sugiro eu, audazmente.

Apesar da apatia que o confrontou e rodeou, Ricardo foi permanecendo em Portugal. Tirou um curso de Arquitectura de Interiores e abriu a sua primeira loja no Bairro Alto em 1987, recheando-a de móveis dos anos 50 e 60. O projecto durou cerca de 2 anos. Nessa altura aproveitou a deixa e o momento mais incógnito para ir viajar. Precisava mudar de ares e refrescar as ideias, por isso, fez as malas e foi para Macau durante 6 meses.

Não demorou muito a voltar pois os projectos que o incentivaram não chegaram a avançar. Voltou assim ao Bairro Alto, uma das suas maiores paixões e alvo da sua quase total dedicação. Foi na própria Rua da Atalaia que teve a sua primeira casa de uma invejável renda de 25 contos. Ouvia música de cada vez que a porta do Frágil se abria. As bilhas do gás às 6 da manhã rematavam a completa impossibilidade de pregar olho durante a noite.

No final dos anos 80, princípio dos anos 90, já o Bairro albergava algumas das suas mais emblemáticas atracções. O Frágil. Os Três Pastorinhos. Os restaurantes. Descreve-o como um pequeno bairro elitista, nada comparado com o dinamismo que apresenta hoje em dia.

Depois de ser cliente, começou a trabalhar no Frágil nas férias da sua porteira habitual, Margarida Martins. Foi o primeiro porteiro, homem, e bateu o recorde de permanência da altura, nas míticas portas do espaço de Manel Reis. Durante cerca de 8 anos recebeu-nos sempre de sorriso quente contagiante. Que saudades! Mas o fim do século coincidiu com o fim da sua carreira nocturna.

No coração tem o seu Bairro e, apesar de todos os seus defeitos e feitios, a cidade que o mantém. Explica que, embora Portugal seja, inevitavelmente, um pais isolado mantém-se, igualmente, pouco estragado. Acrescenta que a cidade alfacinha, de um ponto de vista de temperaturas, oferece, para si, uma das mais atractivas propostas no seio dos países Europeus. Gosta muito, igualmente, de viajar pela Ásia e, para visitar os seus familiares e não só, Austrália. Pela Europa viaja em trabalho. Mantém, no entanto, carinhosamente, uma casa no Alentejo. Para acalmar a alma!

A sua primeira loja foi somente uma primeira experiência. Decidiu ensaiar novamente, agora com mais determinação e clareza. Abriu uma nova loja no seu Bairro, mais precisamente na Rua das Flores (rua que desce do Largo Barão de Quintela até à Rua de São Paulo). Chamou-lhe “Mousse”.

Quis, primeiro de tudo, preencher uma lacuna do mercado português de intermediários entre a produção e os designers. Critica a inexistência de diálogo, entre eles, embora este seja inevitável se o objectivo de todos for, efectivamente, proporcionar condições para que o mercado cresça e reforce a sua consistência.

Assumiu actualmente um novo conceito de loja mantendo o investimento em produtos portugueses, para incentivar e reforçar a visibilidade e, consequentemente, a identidade nacional, apostando agora também em produtos de natureza mais variada. Reúne as Caixas “Casa Portuguesa”, as t-shirts do Dino Alves ou a roupa da Katty Xiomara. Apresenta peças decorativas de todo género. Sugere presentes únicos, objectos de desejo nacionais, transmissores automáticos e eficazes de orgulho próprio luso. Será que Ricardo encontrou a fórmula certa, a cura eficaz para a depressão actual do nosso País?

Na sua opinião, a indústria deixou de poder apoiar-se na produção das ideias dos outros. Tem de ser ela própria a promover a criatividade, tendo os designers que incluir também, nos seus critérios de desenvolvimento criativo, questões práticas que permitirão a futura produção das suas obras, a sua maior divulgação, utilização e consequente reconhecimento pela parte do seu público.

Escolheu “Mousse” para nome da loja porque é um nome em português que pode ser lido em alemão, inglês e françês. É um nome global que, tal como a loja, representa coisas de natureza diversa: uma mousse pode ser de chocolate, manga, doce ou salgada. Pode ser o material “meias de mousse” ou um material expansível para fazer estofos.

Além da loja, Ricardo está presente no Bairro Alto com o bar Napron, antigo três Pastorinhos. Investimento algo nostálgico, reconhece, dado ter sido este, sempre, o seu bar preferido (O Frágil era mais discoteca). A sua filosofia positiva adoptada no antigo Frágil mantém-se agora no espaço que lhe pertence. Não gosta de barrar a entrada! Prefere manter uma porta aberta a quem tem “bom feeling”.

Pretende igualmente, através do bar, investir em artistas propondo-lhes reformulações decorativas livres. Inaugurou-o com a Joana Vasconcelos, sua prima, que aproveitou para o “costurar” de rendas. Outros se seguirão…

A escolha do nome “Napron” é uma oportunidade de divulgar e renovar um nome tipicamente português, dizível também noutras línguas, sendo, ao mesmo tempo, dedicado à sua primeira artista convidada.

Aqui está o perfil de um homem que acredita. Um investidor em talentos. Um optimista apaixonado pela cultura portuguesa. Um amante de Lisboa. Um protector e criador do Bairro Alto.

Homem de, pelo menos, duas paixões aqui descritas. Oferece com orgulho. Ao seu Bairro, à sua cidade de eleição. Ao seu país de predilecção. Vai-nos apresentando esta construção, cativando-nos com a sua dedicação. A nós cabe-nos aprender e “devorar” as suas paixões!



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