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Guns’n’Roses @ Passeio Marítimo de Algés (02.06.2017)

Era virtualmente impossível não assistir a um concerto de Guns’n’Roses com 3/5 da formação original com um sentimento de nostalgia, e a partir daí qualquer julgamento sério seria afectado. Mesmo quem nunca teve afinidade com a banda, dificilmente terá passado incólume a pelo menos uma das suas músicas. E sobretudo se considerarmos o elevado preço do bilhete, era fácil de prever que a aposta estava ganha, e aos Guns bastava não destruir o legado que construíram. Isso nem sempre foi fácil, porque houve momentos em que, sobretudo Axl roçou o ridículo. Os quilos a mais , tornam o que olhos adolescentes outrora viam como sensual e provocador, embaraçoso. Nas raras vezes que tentou fazer pose ou dançar, foi simplesmente triste. Nas duas vezes em que decidiu correr enquanto cantava, perdeu o fôlego rapidamente. Isso destruiu «Welcome to the jungle», que merecia pelo menos uma interpretação ao nível das restantes faixas de “Apetite for destruction”, das quais «It’s so easy», logo no arranque, e «Night Train» foram os pontos altos. Ao contrário, «You could be mine» foi cantada com displicência e com um mínimo de presença vocal e também «November Rain» sofreu de falta de garra. Aliás, em muitos momentos ao longo das 3 horas de concerto, a voz de Axl estava demasiado afundada no meio dos instrumentos, o que contribuiu para retirar mística à prestação, que no fundo foi pouco mais do que competente, e muito menos do que inspirada. Dispensáveis eram as músicas de “Chinese Democracy” que ninguém, excepto Axl, parece apreciar, assim como a versão sofrível de «Black Hole Sun» dos Soundgarden.

Por mais que usássemos a ilusão, era difícil não ver como a falta de forma de Axl tornou a banda mais perigosa do mundo em parecido com a banda mais preguiçosa do mundo, que se safa muito por mérito de Duff, com melhor aspecto do que nunca, sobretudo a cantar «New Rose» dos The Damned. Também de Slash, que sabe portar-se de acordo com a idade, dá o seu contributo. O resto da banda está à altura dos Guns do séc. XXI, mas mesmo com Dizzy Reed igual a si próprio e Richard Fortus num registo muito Izzy Stradlin, muita heroína e whiskey teria de correr pelas suas veias para se aproximarem sequer dos Guns de 1987. Claro que não passou despercebido que nenhum dos membros da banda trocou palavra enquanto estiveram juntos no palco, e que os interlúdios instrumentais continuam a existir para Axl conseguir trocar de roupa entre as músicas, se bem que desta vez apenas os casacos tenham mudado.

Se era melhor terem continuado separados do que destroçar a ilusão que tantos corações guardavam carinhosamente dentro de si? É provável, mas mesmo com um Axl a pesar mais do que todos os membros originais em 1987 e com um registo vocal que apenas a espaços atingia aquilo que dele seria esperado e com um Slash mais apagado do que o costume, estes Guns’n’Roses ainda carregam consigo um resto de magia de uma era que nunca mais vamos voltar a viver, nem os nossos filhos vão perceber o que era. Mas a selva, essa, há muito que ficou lá atrás.



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