“Holocausto brasileiro” | Daniela Arbex

“Holocausto brasileiro” | Daniela Arbex

Corpos errantes

Eis uma aposta do clube do livro SIC que destoa de alguns dos seus avanços prévios (ocorre-nos “Alta Definição – A verdade do olhar”, de Daniel Oliveira, ou “Cartas da Maya: O Dilema”, claro está, da taróloga Maya). Apostando numa grande reportagem premiada e num tema que a muitos causa desconforto, “Holocausto Brasileiro (Guerra & Paz, 2014) trata do trágico percurso do hospício de Colônia, em Minas Gerais, num apanhado bem documentado das mais diversas violações éticas que lá ocorreram, no que diz respeito ao  internamento de doentes mentais e outros tantos pacientes com diagnósticos dúbios.

A autora, Daniela Arbex, repórter do Tribuna de Minas, não esconde emoções fortes um pouco por todo o percurso que compreendeu a escrita de “Holocausto Brasileiro”, conseguindo a sobriedade desejada para concluir o projecto notável a que se propôs. Apresenta-nos ainda uma causa nobre como motivação, sendo que evitar o esquecimento é a sua maior demanda e, também, aquilo que considera uma das pedras basilares do jornalismo. Arbex possui uma voz que encontra o meio-termo entre o popular e o erudito, em certos aspectos com o mesmo imediatismo de Albert Londres em “Com os Loucos”. É também uma voz que incorpora vozes que sobreviveram ao hospício.

As condições de vida em Colônia, tal como em muitos outros hospícios até aos nossos dias, eram, sem tirar nem pôr, deploráveis. A comparação com os campos de concentração nazis pode parecer descabida, mas para isso servem os documentos fotográficos que abundam ao longo do livro. Se a incredulidade persistir, recomenda-se o visionamento de “Em nome da razão”, de Helvécio Ratton, referenciado pela autora. Os corpos errantes e desmazelados, uivos delirantes de dor e caras sofridas que no documentário figuram são certamente uma pequena parte do horror.

O citado filósofo Michel Foucault, na amplamente referenciada “História da Loucura” – entre muitas outras coisas -, faz questão de frisar a singularidade da doença mental em relação às outras aflições do corpo. Há, por isso, toda uma validação confinada à cabeça do paciente que é propensa a ser lidada com negligência, pois não existem soluções eficazes para aquilo que o não louco, em grande medida, desconhece. É por isso difícil ousar-se falar em cura e é fácil segregar. A compreensão das doenças do foro psiquiátrico passam, sobretudo, por admitir que não há uma forma linear e estandardizada de tratamento para todos os males da psique.

São muitos os testemunhos centrados em perdas pessoais e reencontros que a morte não permitiu que acontecessem. É uma constante em “Holocausto Brasileiro”, uma espécie de ajuste de contas com o hospício de Colônia. A vaga activista que propôs a alteração dos estatutos de internamento e respectivos internados no Brasil veio a redefinir a doença mental e atenuou a ideia medonha de limpeza social.

É certo que nada fica resolvido, como propõem as utopias, e os loucos continuam a ser despesistas involuntários. Contudo, a reforma muito desejada na triagem da loucura é um passo em frente inegável. Será mesmo preciso repetir que ainda há muito a ser feito, em todo o lado. A ver se o passado continua fresco na memória colectiva – às vezes, sob as demais variantes e espectros, parece que não.



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