Joana Amaral Dias

Joana Amaral Dias

«…Lanço um livro e alguém, sem o ler, comenta: “pronto aqui está a menina que tem a mania que é bonita a mandar umas bocas de taxista que o pai lhe ensinou sobre a política”»

A Rua de Baixo esteve à conversa com Joana Amaral Dias. O motivo maior foi a edição do livro “O Cérebro da Política”, mas a conversa escolheu também outros caminhos.

O seu novo livro é um manual de Psicologia Política. Que uso prático tem esse ramo em Portugal?

Tanto quanto sei tem pouco uso prático. Existem, claro, alguns psicólogos e cientistas políticos que se dedicam a esta área, todavia está ainda pouco divulgada, mesmo entre a comunidade académica, quanto mais na respetiva aplicabilidade, nos partidos políticos, na formação cívica. E é pena. A Psicologia Política permite aos cidadãos terem mais consciência das suas escolhas políticas. Logo, permite mais liberdade.

Agora que contamos com a sua visão holística, que temas mais específicos gostava que fossem investigados no meio académico?

Em primeiro lugar, é fundamental que a investigação nesta área conte com psicólogos. Frequentemente, sobretudo em Portugal, a pesquisa é conduzida por cientistas políticos que não têm qualquer formação em Psicologia. Ora, estudar o que é essencial neste campo – emoções e comportamento – não pode, de forma nenhuma, prescindir da disciplina que tem as teorias, conhecimentos e ferramentas. Por outro lado, e aliada à neurociência, julgo que seria essencial conduzir investigações específicas sobre o eleitorado português-  por exemplo, quais os seus níveis de obediência e conformismo?

Escreveu que “gostar dos candidatos é a emoção mais importante” e que só “depois vêm emoções como as relativas às suas competências”. Isso significa que viramos os olhos, com grande facilidade, à incompetência de candidatos pelos quais sentimos empatia?

Não. Sabemos que muitos comportamentos como a competência e a empatia são facilmente avaliados pelo eleitorado. No livro, falo, por exemplo, das “finas fatias de comportamento” que são experiências essenciais e demonstrativas dessas capacidades. O que é mais complicado avaliar com acuidade é a fiabilidade. E, aparentemente, é justamente aí que tem falhado a apreciação de quem vai às urnas.

À luz do fenómeno das redes sociais, quais as consequências imediatas do distanciamento físico no exercício político?

As redes sociais possuem inúmeras vantagens e não devem ser diabolizadas. Contudo, sabe-se, por exemplo, que pouco estimulam o pensamento crítico e que, como não podia deixar de ser, apresentam elevados padrões de contágio emocional. Com o perigo de, justamente por não existir presença física, se perder também a essencial capacidade de descodificação e correta reação dos/aos outros. Isso significa que, por exemplo, o ódio pode estalar com a rapidez de um incêndio de Agosto.

Costuma ler o que escrevem a seu respeito, a título de exemplo, nas caixas de comentários dos sites de jornais?

Por vezes. Se bem que, a partir de certa altura, tornaram-se muito previsíveis – dirigem-se em primeiro lugar e numa atitude sexista (de ódio) à aparência física, muitas vezes aos meus antecedentes sócio-familiares (filha de médicos) ou partem implicitamente daqui. Por exemplo, lanço um livro e alguém, sem o ler, comenta: “pronto aqui está a menina que tem a mania que é bonita a mandar umas bocas de taxista que o pai lhe ensinou sobre a política”. Enfim, a reação é emocional, como não podia deixar de ser, como é sempre. E há características pessoais que a esquerda não perdoa.

É inevitável colocar algumas questões sobre o panorama político português. Vê a oposição ao actual governo chegar a um consenso?

A situação política portuguesa está bloqueada. Em risco de criopreservação. No PS será sempre mais fácil mudar de líder do que cavalgar uma onda de sucesso. Depois, se o PS se coligar com a direita, perderá, irreversivelmente, uma fatia do seu mais fiel eleitorado. E será bem feita. Mas coligar-se com a esquerda tem a dificuldade de fazer uma cirurgia à medula espinhal com luvas de boxe. No meio de tudo isto, o Presidente da República perdeu a capacidade de arbitrar a vontade dos portugueses. Temo o pior.

Afirmou ter “uma convergência ampla com o BE”. Como responde aos que afirmam que há muito que o PS não se rege por uma política de esquerda?

É verdade que os partidos socialistas europeus se deixaram colonizar pela direita. Em vez de austeridade, austeridade inteligente, por exemplo. Enfim, contentaram-se em ser uma espécie de mal menor e estão agora a pagar a fatura desse canto da sereia. Mas sem o PS não existirá uma resposta ampla e de governo. O BE, o PC, o Livre só podem lutar por esse denominador comum e procurar influenciar o PS. Têm que tirar as luvas de boxe e calçar uma luva branca.

Está sem participação activa no BE há alguns anos, embora só se tenha afastado definitivamente há pouco tempo. Previa, já por altura das presidenciais de 2006, a perda sucessiva de influência do BE?

Sim. Como também já previa que Mário Soares viria a ser uma figura fundamental deste princípio de século e por isso aceitei ser sua Mandatária para a Juventude. Veja-se como o BE ficou zangado com isso (embora as presidenciais não sejam partidárias) e como agora anda de braço dado com Mário Soares. Perder essas eleições apostando, mais uma vez, numa esquerda divida, foi o princípio do fim. Basta pensar que, se Soares tivesse sido eleito (2006-2011) a direita não teria o seu sonho/o nosso pesadelo: um presidente, um governo, uma maioria.

Em tempos julgou-se que o BE era a esperança da esquerda em Portugal. Nestas europeias, as atenções recaíram sobre o LIVRE. O que acha das reformulações sugeridas por Rui Tavares?

Acho que o Livre fez um belo trabalho de programa político e de democracia interna. Mas tem ainda um longo caminho a percorrer, em ambos os domínios. No primeiro, terá que procurar ter ressonância emocional com o eleitorado, sob pena de ficar circunscrito ao votante pós-doutorado de Lisboa. No segundo, terá que se libertar da concentração unipessoal.

Para terminar, que podemos esperar de si nos próximos tempos, quer a nível de produção literária, quer a nível da sua participação activa na vida política portuguesa? 

Sinceramente, não sei. Tenho aceite todos os desafios políticos que estão de acordo com a minha consciência, o que continuarei a fazer. Venham mais. Quanto ao meu quarto livro, é simples: logo que me ocorrer uma boa ideia. Espero que seja já no próximo feriado.



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