“O Cérebro da Política” | Joana Amaral Dias

“O Cérebro da Política” | Joana Amaral Dias

Homo Politicus

Simplificar sem facilitismos é a máxima que Joana Amaral Dias aplica ao seu manual académico, “O Cérebro da Política (Edições 70, 2014). Expõe o essencial de uma das “subespécies” de estudo da Psicologia que, mesmo não estando na ribalta, tem impacto significativo na vida quotidiana. Que bicho-de-sete-cabeças é este chamado Psicologia Política? Quais os mecanismos que o define?

Os processos neurológicos na base das acções da tríplice candidato/político/eleitor têm muito de previsível, afinal de contas são humanos, sociais e regidos por uma miríade de traços vincados, muitos dos quais devidamente estudados. Não se trata de especular ou negar a imprevisibilidade da acção humana, antes aprofundar características que tanto definem o político como qualquer outro homem (a separação não chega a acontecer, como é óbvio): a personalidade, as emoções, memória ou as interacções em grupo. O lado animalesco do Homo Politicus está sempre em jogo, debaixo das camadas de retórica e eloquência. Confirma-se o suspeito, que dificilmente sacudimos a primeira impressão, impressão esta dada a imprudências, ainda que depois se recorra ao protesto, seja nas ruas, através do voto ou nas inflamadas caixas de comentários nas redes sociais.

Mesmo que no seu âmago seja um texto académico, como personalidade política (salve seja o jogo de palavras) da esquerda portuguesa, Joana Amaral Dias não podia deixar de incluir no livro farpas aos suspeitos do costume da direita vigente, entre elas uma previsível passagem sobre a decisão “irrevogável” de Paulo Portas. Porém, nem a esquerda escapa ao criticismo – aliás, seria uma obra patética se usada unicamente para autopromoção dos interesses da autora. Aponta, por exemplo, numa direcção contra-corrente quando diz que «a verdade é que a esquerda até pode fazer o discurso sobre a desregulação das relações laborais, mas nunca o associa a um valor/sentimento fundamental – família». Mais imperdível acaba por ser a cómica reinterpretação da fábula dos três porquinhos, ridicularizando os chavões quer da direita, quer da esquerda.

Para além dos versados em neurociências, o leigo não ficará avesso ao discurso de Joana Amaral Dias. Será, certamente, o que a autora ambicionava. Sempre convidativa na sua exposição e exploração da pluralidade temática da Psicologia Política, é criada uma empatia imediata com o texto. Assim, posto de lado a repulsa sentida por aquele tipo de prosa académica cujo emaranhar devia ser punível por lei, até dá gosto.



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