João Zamith | Entrevista
«Sinto que funciono como autor de terror, porque o terror mexe comigo»
Uma das novas vozes do terror nacional, João Zamith, lançou recentemente o seu livro de estreia, Coisas Ruins, uma obra que vem deixar a sua marca num género literário em crescimento em Portugal.
Em entrevista à Rua de Baixo, o escritor vimaranense fala-nos sobre a sua experiência pessoal e profissional, os seus gostos literários, e como estes influenciaram a sua escrita, e o seu livro, deixando a promessa de novos projetos, vincando o seu desejo em contribuir na promoção do género literário de terror em Portugal, na companhia de uma grande casa editorial como a Penguin Random House.
O teu livro foi baseado em alguma história real ou eventos históricos/ sobrenaturais que possam ter influenciado o enredo e personagens?
O livro não é influenciado por nenhum evento específico, sendo influenciado muito pelo contexto histórico, ou seja, (…) todo o ambiente, todo o clima que se vive, tanto a nível daquilo que é a parte realista do livro, das relações familiares, das relações sociais, daquela burguesia industrial do Norte, em que esta família se insere, como inclusive a parte folclórica, a parte das almas penadas, do culto das almas penadas e da morte, é inspirado na realidade, em tradições que são reais, num contexto que é real e que é bastante parecido com o meu. (…) Para fazer funcionar a parte de terror do livro, a parte mais impressionista do livro, eu precisava de ter uma base no real, muito sólida. E, portanto, foquei-me nisso e procurei que fosse assim.
A história aborda temas complexos como o trauma generacional, a fé e a redenção. Como é que esses temas se mesclam no enredo e nos personagens?
Esses temas misturam-se de uma forma muito natural, porque – eu gosto de usar o termo território para falar destes romances -, porque nós estamos a construir uma história. (…) Tens um território que queres explorar… e os melhores livros, as histórias mais consistentes, são aquelas que entendem o território em que se movimentam. E, portanto, para fazer a exploração do território que te interessa para este romance, vais naturalmente chegar a sítios diferentes, como aqueles que referes. Para mim, como escritor, o território deste romance é a memória. É como é que nós indivíduos somos condicionados pela carga que trazemos. Tanto pode ser individual, como familiar, como cultural… porque convencemo-nos que somos muito independentes, muito capazes de tomar decisões racionais baseadas nos nossos princípios. Questiono isso. Em que medida é que somos indivíduos independentes, produto da nossa família, da nossa cultura, da nossa terra, da nossa tradição… E, portanto, ao explorar esse território, todos os elementos que citas, como outros, surgem naturalmente, porque são parte desse espaço.
O cenário apresenta-se como um personagem dentro da narrativa. Como é que a cultura e geografia de Portugal influenciaram os elementos de horror no enredo?
Mais do que pensar nelas (cultura e geografia) como portuguesas, penso nelas como minhas. (…) Sou muito Faulkneriano nesse aspecto. Isto porque Faulkner, em praticamente todas as suas narrativas, tanto as longas como as curtas, são passadas numa pequena comunidade nos Estados Unidos, chamada Yoknapatawpha, e, às vezes, é acusado de insularidade por isso, porque todas as suas histórias são muito locais, são muito regionais, são baseadas na mesma coisa (…) A forma como as pessoas se relacionam é fundamental para ele contar as histórias que ele quer contar.E, portanto, acabo por recorrer ao Norte de Portugal, e a este lugar que é uma personagem fundamental. É um contexto que define aquilo que este livro pode ser, porque é meu, porque é o que conheço, as personagens movimentam-se de maneiras que, para mim, são verossímeis, têm verossimilhança, porque conheço-as, as personagens falam de uma maneira que, para mim, é real, porque conheço-a, etc., etc., etc..
Sentes-te mais à vontade no teu território…
Exatamente. Para partir para o universal na minha narrativa, quero que o meu particular seja muito forte, e para isso, tenho que o conhecer. E por isso, eu preciso do meu, para fazer isto acontecer. (…)
Alguns dos teus leitores referem que ler o teu livro se “sente como um filme”. O que opinas?
O livro não foi pensado com o intuíto de fazer nenhuma adaptação, continua a não ser. Tenho uma relação muito difícil com adaptações. Há um ensaio do Jonathan Franzen, que é muito formador para mim, e é um dos ensaios importantes, que que condicionam muito do que acabei por fazer, tanto literalmente com este livro, como com o que vem aí, mas também aquilo que eu fiz academicamente antes de começar isto, a estudar estrutura narrativa em literatura. É um ensaio que se chama Why Bother?, foi publicado originalmente na revista Harper’s, da Harper’s Bazaar, com o título Perchance to Dream (…) há uma parte que, para mim, é particularmente, importante, que é a ideia de tirar a mediação, ou seja, de falar o mais diretamente com o nosso público, o nosso leitor, numa relação que não é unidirecional, numa relação que é dialética, em que a pessoa que está a ler, vai dar tanto de si ao texto, como nós, quase.
(…) quando faço este livro, a última coisa em que estou a pensar é numa adaptação. Estou a pensar, pelo contrário, em como é que o meu leitor vai experenciar aquilo que estou a pensar (…) Penso sempre, não só naquilo que quero que o leitor esteja a pensar e a sentir – que acho que é mais típico -, penso em como é que estou a manipular o leitor, em todos os cinco sentidos. (…) Porque os capítulos são cenas (…). Porque não estou só a pensar a nível intelectual naquilo que quero que o leitor esteja a pensar e a sentir, mas porque (…) penso qual é o espaço que as minhas personagens estão a ocupar, penso nisto quase como se estivesse a realizar um filme imaginário, na minha cabeça, que não quero que exista. Quero que exista na cabeça do leitor.
(…) Quero estabelecer essa relação com o leitor, quero que o leitor sinta o que quero que ele sinta, porque isto é um livro de terror e manipular o corpo é muito importante. Em sítios específicos, quero que o coração do leitor esteja a bater mais rápido, quero que o leitor esteja um bocadinho aflito. (…) quero que exista essa aflição, esse bater do coração, mas também quero, nas partes que não são de terror necessariamente, manipular o leitor da mesma maneira.
Descreveste-te como alguém “caguinchas” que precisa de apoio para ver um filme de terror. Como é que vieste parar a este género literário?
Precisamente por isso. Há uma citação muito conhecida do Robert Frost, “No tears in the writer, no tears in the reader”, e identifico-me muito com isso.
Acho que se estiver a escrever uma coisa a que eu seja razoavelmente indiferente, é muito mais difícil, para mim, conseguir essa manipulação, da qual estávamos a falar na resposta anterior. Por isso, se estiver a tratar coisas que não mexem comigo de alguma maneira, não funciona…
Precisas de sentir o temor, o terror nos ossos…
Exatamente. Sinto que funciono como autor de terror, porque o terror mexe comigo, e porque essas técnicas são eficazes em mim. E por isso, consigo usá-las. Porque penso no que funcionaria em mim, o que é que me deixaria ali, ligereiramente aflito, ligeiramente ansioso…
Foi precisamente o ler mais terror, porque não sou leitor de terror de toda a avida, o que é invulgar. A maioria dos autores de terror, normalmente, são leitores de terror desde a adolescência, ou desde a infância. Eu era um leitor muito casual de terror, já tinha lido aqueles autores obrigatórios, a Shirley Jackson, o Ray Bradbury, Stephen King obviamente, etc. Mas, depois há um momento, como editor da 20/20 editora, trabalhava numa chancela que é a Cavalo de Ferro, uma das chancelas literárias da 20/20, e o editor dessa chancela, que é uma pessoa que adoro, uma pessoa que considero um amigo, e um dos leitores, e editores mais afirmados que conheço, com um gosto muito pessoal, muito trabalhado…um profissional extraordinário, e tem uma – acho que ele não se ofende por eu dizer isso… é o Diogo Madredeus -, ele tem uma certa sobranceria em relação às coisas de que eu gosto, menos numa altura.
Estávamos a falar, precisamente, sobre Stephen King, e ele atirou que “o Stephen King, por amor a Deus, o homem escreve dois ou três livros por ano, claramente ele tem ghostwriters”. Ele dá umas ideias, e aquilo depois, entra e vai para a máquina. Ora, eu não era um leitor profundo de Stephen King, mas o que tinha lido do autor…(…) Os vários livros que eu tinha lido do Stephen King, eram todos, radicalmente, diferentes uns dos outros, nada a ver uns com os outros, o mais longe de máquina que eu consigo imaginar…Fiquei com a ‘pulga atrás da orelha’. Porque é que o Diogo, está a dizer isto? Isto não faz sentido nenhum!”
Fui à Internet procurar, e (…) caí num rabbit hole. Li 10 livros do Stephen King, mais ou menos, consecutivos, e depois passei para o Joe Hill (…).
Por exemplo, Nosferatu foi um livro muito marcante para mim, do Joe Hill, mas li mais. Li o Heart-Shaped Box, li uma série de coisas do Joe Hill, e depois passei para a geração contemporânea de escritores de terror norte-americanos, que conhecia muito mal, ou para não dizer que não conhecia de todo, comecei a ler Paul Tremblay, comecei a ler Stephen Graham Jones, comecei a ler Tananarive Due, que se tornou uma referência incontornável para mim. Li dezenas, li muitos seguidos, e depois comecei a ler os britânicos, comecei a ler Andrew Michael Hurley, comecei a ler… enfim, um rabbit hole total, depois caí para os espanhóis, os mais literários, Sara Mesa, todas essas coisas, li recentemente Laila Martinez, o Caruncho, que é um livro absolutamente espetacular…
Enfim, percebi que estavam a ser feitas coisas do terror, a haver coragem para ir a lugares do terror, e havia ferramentas na toolbox do terror, especialmente nos autores que tinham a coragem de ter um pé no literário, e outro pé no comercial. (…) Esses autores que têm um pé de cada lado…percebi que eles estavam a usar ferramentas que lhes permitiam fazer coisas que eu queria fazer, e que eu, como escritor de literatura, estava a ter alguma dificuldade em fazer, e pensei “Este é o meu espaço”, e foi aí que comecei a escrever o primeiro draft que iria para o lixo.
Tiveste um draft que foi para o lixo?
Tive um draft do Coisas Ruins, que não se chamava assim na altura. Era muito diferente e foi inteirinho para o lixo. Quase 200 páginas… E disse “Não é isto, ainda não acertei”, e fez click para mim, quando li o Normal People, da Sally Rooney, que é um livro que não tem nada a ver com Coisas Ruins, mas que faz uma coisa que o Coisas Ruins também faz, e que desbloqueou, para mim, o livro…
Percebi que a Sally Rooney estava a conseguir levar-me emocionalmente a sítios (..) e atingir uma complexidade de relações com um minimalismo de linguagem e com um minimalismo de espaço.
Ela estava a conseguir fazer isso de uma maneira muito específica, que tem a ver com a técnica do narrador que ela usa, que é uma terceira pessoa próxima, aplicada de uma maneira muito específica, que pensei “É exatamente isto que eu preciso, para conseguir fazer o que quero fazer com este livro sem escrever 700 páginas. Não quero escrever 700 páginas, quero escrever metade disso”, e estava a ter alguma dificuldade em ir onde queria ir, explorar tudo o que são importantes, que não são secundárias. Estava a escrever, e o Normal People, que também tem, não só o casalinho, tem mais duas outras personagens muito importantes, que são importantes em muito pouco espaço e pensei “Pronto, está aqui a chave para o que eu quero fazer”, e esse draft foi para o lixo, reescrevi-o do princípio.
Como é que o teu background em Literatura Portuguesa Contemporânea e a tua experiência no meio editorial, te influenciaram a ser autor e a publicar o teu livro?
Diria que os meus estudos literários não me influenciaram tanto quanto se poderia supor. Acho que me influenciaram porque me deram uma bagagem muito grande sobre como escrever. Acho que nenhum escritor se forma como escritor, tem de se formar como leitor primeiro. Todos os bons escritores, e todos os escritores que eu respeito e admiro, são primeiro grandes leitores e só depois grandes escritores.
O facto de ter lido tanta literatura portuguesa, inevitavelmente, acho que me deu algum conforto com a língua, e algum conforto com as estruturas narrativas para poder escrever. Indiscutivelmente foi só isso, porque acho que pelo menos a este nível, ao nível de escrever livros como Coisas Ruins, não sinto que os meus pares sejam os autores que mais admiro.
Em termos de literatura portuguesa, o facto de trabalhar no editorial tem um papel muito importante porque me ensinou a trabalhar o manuscrito, e me ensinou a olhar para o livro, não só como leitor, não só como escritor, mas também como editor.
(…) Se não tivesse tido 3 anos de experiência no editorial a ver como as salsichas se fazem, e não tivesse esse conhecimento, e essa capacidade, não ia fazer um manuscrito tão maduro.
Qual crês que vai ser o impacto do teu livro no terror nacional?
Não faço a mais pequena ideia. É muito difícil para mim responder a essa pergunta. Neste momento, e como já falámos, existe pouco terror traduzido em Portugal, ou pouco interesse no terror, mas… o que a Diana (Garrido), está a fazer, e de alguma maneira o está a demonstrar – porque acho que a receção tanto ao meu livro como ao do Fábio Ventura está a ser muita boa – é que, se calhar, existe mais mercado para o terror, e mais apetite por este tipo de histórias, do que se poderia pensar.
Acho que existe um preconceito em relação, não só ao terror, como em relação a todas as literaturas do corpo.
(…) Acho que existe um preconceito em relação a estes três géneros, acho que esse preconceito se está a levantar, acho que o erotismo já deu largos passos em Portugal, e já tem um espaço no mainstream muito mais confortável do que tinha há meia dúzia de anos, (…) acho que no humor e no terror, este percurso precisa de ser feito.
Qual é o papel deste livro nesse percurso? Espero que algum. Não sei qual. Espero que algum. Quero, certamente, fazer parte dessa luta pelo mainstream, porque muito do terror em Portugal, ainda está em pequenos grupos de nicho. Têm feito um trabalho inestimável, atenção!
Acho que grupos como a Divergência, a Fábrica do Terror, etc, acho que eles estão a lutar contra a maré de uma forma que tem muito valor. E acho que a entrada da Penguin Random House, de um grande grupo editorial nessa luta, só pode boa, só pode ajudar.
Eles têm feito um trabalho, que tem um mérito incrível, mas a Penguin tem recursos diferentes e, por isso, quero colaborar com essa gente toda. No dia 27, vou fazer um evento com a Fábrica do Terror.
O que puder fazer, e do que puder fazer para trazer a marca da Penguin para o trabalho que eles estão a fazer, eu vou fazer. E sem hesitação nenhuma.
Qual será o próximo projeto? O que podes levantar desse véu misterioso?
O mínimo possível. Mas posso dizer… acho que há duas coisas que as pessoas me perguntam sempre, e que eu não tenho problema em responder. Primeiro, é de terror também. Tenho uma novela que não é de terror, uma novela que é uma ficção mais literária, que eventualmente poderei querer publicar ou não… Não sei se isso se vai proporcionar. Acho que poderá fazer sentido no futuro a médio prazo, mas o próximo livro será, certamente, um livro de terror. E a segunda coisa que posso dizer, com toda a certeza, é que também vai ser passado em Guimarães.
Vai ter algum personagem conhecido?
Possivelmente. Ainda não decidi, mas possivelmente. Não é uma sequela, isso garantidamente. Vai ser bastante diferente deste a alguns níveis técnicos, estruturalmente/tecnicamente não vai ser muito parecido, mas vai ser de terror e vai ser em Guimarães, e pode ser que apareça uma personagem conhecida, ou não. E, se aparecer, eu sei qual é, mas não vou dizer (risadas).
NOTA A Rua de Baixo agradece, encarecidamente, ao escritor pela disponibilidade e boa disposição, e à Penguin Random House pela cedência do espaço para a realização desta entrevista.
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