“As enganadas” de Teresa Veiga

Mulheres que desafiam o silêncio

Voz singular dentro do universo do conto literário, Teresa Veiga, três vezes vencedora do Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco/APE, tem, ao longo de mais de quatro décadas de escrita, demonstrado uma coerência no todo da sua obra, sublinhando-se a mestria como dá voz a personagens femininas que habitam mundos que misturam o recato com a inquietação, o desejo com a repressão, a coragem com o medo do vazio ou da intimidade.

Nesse caldeirão criativo, sublinhado com doses assertivas de ironia e negrume, há também espaço para o quotidiano, as peculiaridades da vida social, da moral, do desejo e da morte, com o oculto a coexistir acima de qualquer convenção.

Dessa forma, Teresa Veiga foi construindo um edifício literário que se lhe conhecem os contornos após a leitura das primeiras linhas, uma assinatura que lhe vale um lugar próprio no espaço literário nacional. E a melhor forma que encontrou para espalhar, partilhar, a palavra é a reunião das suas histórias, mais ou menos breves, em livros de contos.

Com o recentemente editado As enganadas (Tinta da China, 2025), Veiga recupera uma obra inicialmente lançada em 2003, pela editora Cotovia, composta por três contos há muito indisponíveis que trazem a palco personagens femininas aparentemente frágeis, envolvidas em rotinas domésticas ou dramas íntimos, mas que, aos poucos, se revelam figuras complexas, desafiando o que a sociedade, e as pessoas, esperam de si. Tal como o título sugere, são mulheres enganadas, principalmente tendo em conta que se sentem injustiçadas, incompreendidas, surpreendidas, descrentes de e em si, procurando, através das suas atitudes, uma justificação ou redenção. 

Se, em A morte de um jardineiro, conhecemos a luta de Rosália Pérez, uma esposa dedicada à família, pela dignidade e em favor da verdade e compromisso, apesar da crítica social e do que isso poderia ser-lhe prejudicial, no “conto do meio”, Danças húngaras de Brahms, revela como a desconfiança relativamente à vida de um filho pode levar a descobrir que a vida pode ser curta demais para ter a resposta a alguns dilemas, mas que a liberdade de se fazer o que se quer não pode nem deve ser ocultado a quem nos ama. É talvez o mais musical, literalmente falando, deste trio de histórias, e que mais desafia as convenções e aquilo que pode ser definido por uma identidade escondida, refém do que os outros podem pensar.

Por fim, Confidência barreirense cruza paixão com morbidez, amor com dever, destino com sacrifício, herança e promessa. A elegância com que se relata uma experiência insólita de uma conservadora do registo civil no Barreiro, terra que abraça o Tejo e não esquece as raízes industriais que, em tempos, a fizeram referência económica e social num país cinzento, torna uma história, marcadamente gótica, digna de configurar entre as mais icónicas da autora nascida em Lisboa, cidade que tem vista privilegiada para o outro lado da margem que é aqui palco.

Espelhos ora turvos, ora mais cristalinos, de vidas reféns do que a existência pode representar, os contos reunidos em As enganadas são uma recompensa que resulta de um jogo nascido da tensão criativa de Teresa Veiga face a um tempo e espaço de um Portugal sempre presente, imemorial, e que reúne um imaginário comum, por vezes mágico, outras, obscuro e pessimista, onde a mulher, sempre ela, mesmo quando emancipada, continua a ser lida por códigos ímpares atados a uma certa descrença, mas que vence obstáculos numa luta desigual, rasgando o silêncio.



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