Kalorama 2025 | Dia 1 (19.06.2025)
No calor da portugalidade, do drama e da dança: o primeiro dia do MEO Kalorama 2025
Texto por Vítor Borborema e fotografia por Graziela Costa.
Parque da Bela Vista, Lisboa — O sol não perdoa no primeiro dia do MEO Kalorama. Ao longo da tarde, o calor transforma o parque num caldeirão de corpos suados. A multidão, dispersa entre sombras improvisadas e filas para água, carrega nos ombros a promessa de um alinhamento que mistura portugalidade suburbana, decadência romântica americana, êxtase dançante e nostalgia eletrónica. No ar, o cheiro a relva pisada e a factor solar combina com o som dos soundchecks que anunciam: o festival começou.
O cartaz da noite promete um percurso singular, da portugalidade crua ao cabaré apocalíptico, do êxtase dançante à abstração sonora.
Com o sol ainda alto e implacável, David Bruno entra em cena no palco principal. De casaco vestido, avisa: “Eu não tiro se vocês não arredarem pé.” O público ri, aplaude e permanece firme — e assim se sela o primeiro pacto da noite. A sua “tascaria psicadélica” trouxe uma portugalidade suburbana, invisível aos roteiros turísticos, com paródia pós-moderna e memória coletiva. Acompanhado por Mike El Nite, Presto da Mind da Gap e um guitarrista, encarnou um mafioso de Gaia ao lado um cowboy eurotrash. Neste baile do romântico de afters, as flores de plástico. Há Guitarradas sensuais, beats com piscadelas a VHS de videoclube e versos sobre noites quentes que terminam no McDrive construíram um culto ao quotidiano.
No auge da atuação, David salta para o meio do público, entre plásticos e suor, atira flores artificiais, e transforma o concerto num pequeno culto do quotidiano. É um Portugal de província, mas nunca menor — uma ode aos cantos esquecidos, contada com humor, alma e respeito.
Se David Bruno nos pôs a suar com humor e groove, Father John Misty instala a sua liturgia pós-romântica já com a luz dourada a pintar o céu. Com uma banda de sete músicos, o cantor americano apresenta o seu álbum “Mahashmashana” (2024) como quem comanda uma embarcação transatlântica em direcção ao abismo emocional, ora niilista, ora irónico, mas sempre com classe. Instaura-se um cabaré apocalíptico no palco principal
Joshua Tillman — o nome por detrás da persona — canta como quem lê um diário embriagado por filosofia e sarcasmo. «Screamland», talvez o momento mais catártico da noite, transforma-se num hino para os perdidos — “todos nós”, como ele próprio insinuaria. As canções fluem como confissões dramáticas, por vezes cruéis, sempre belas. O grave da voz e a bateria profunda marcam o ritmo de uma viagem onde o amor, o vício e a decadência caminham de mãos dadas.
Quando a noite cai, Sevdaliza toma o Palco San Miguel de assalto com a aura de uma estrela “descoberta” nas redes sociais, mas forjada na resistência artística. O público é denso e vibrante, e não se parece se cansar de dançar nenhuma das músicas da artista.
Com projeções hipnóticas amplificando a intensidade sonora, a artista iraniana-holandesa apresentou-se como “Heroina”, desafiando etarismo, machismo e categorias de género. Hits virais como «Alibi», com Pabllo Vittar, fizeram o público berrar a plenos pulmões, enquanto «Maria Magdalena» e «Ride or Die» misturaram pop-funk-latino com camadas experimentais. O momento mais humano veio quando trouxe o filho ao palco, numa pausa emotiva que humanizou um espetáculo alucinogénico. A coerência do alinhamento talvez falte, mas sobra presença, força e carisma. Ela não quer ser só voz viral: quer ser mulher, mãe, artista — e é.
Cabeças de cartaz do primeiro dia do MEO Kalorama 2025, os Pet Shop Boys entregaram um concerto que reafirma o poder eterno do pop. Desde os primeiros acordes, o duo britânico transformou o Parque da Bela Vista num universo onde passado e futuro colidem em cores néon, provando que o tempo não apaga o brilho da sua música.
A cenografia teatral, com postes de luz, figuras geométricas e animações retrofuturistas, criou um espetáculo visual e sonoro que transcende décadas. Neil Tennant, com sua voz inconfundível, e Chris Lowe conduziram o público por um repertório intemporal, de «It’s a Sin» a «Always on My Mind», canções que soam tão atuais hoje como em 1986. Bailarinos prateados, com roupas metálicas e asas translúcidas, animaram o palco, enquanto visuais geométricos dançavam nas telas, amplificando a euforia de uma plateia que, com sweaters finalmente vestidas, dançava como se o tempo não tivesse passado.
A energia do público confirmou: este foi um dos grandes momentos do festival. Cada faixa, independentemente do ano de origem, pulsava com densidade e brilho, guiada por mestres que entendem que “ser aborrecido é pecado”. Os Pet Shop Boys não apenas encabeçaram a noite — redefiniram o que significa ser pop, com uma performance que ficará gravada na memória de Lisboa.
O dia chega ao fim, mas Roi Perez assume o Palco Panorama como quem acende o último pavio da festa. O cenário é quase mítico: entre árvores altas, bolas de espelhos refletem lasers que cortam a noite como faíscas espaciais. A música, por vezes atmosférica, outras vezes industrial, serve como trilha para uma rave improvisada.
Champanhe imaginário, linho branco, corpos em êxtase, gente a tropeçar, a rir, a beijar. Nesta Ibiza imaginária, a pista de dança parece não ter fim. Perez entende o espaço e o momento: oferece um set que não protagoniza, mas conduz. Ali, o DJ é apenas o guia de uma viagem de abstração sonora até o fim da noite.
Quando as luzes se apagaram e as colunas silenciaram, o Parque da Bela Vista exalava exaustão e contentamento. O primeiro dia do MEO Kalorama 2025 foi um retrato da pluralidade musical: da portugalidade crua de David Bruno à catarse apocalíptica de Father John Misty, do fervor viral de Sevdaliza ao pop eterno dos Pet Shop Boys, culminando no hedonismo de Roi Perez. No calor e no caos, Lisboa dançou. E foi só o começo.
Leiam aqui as reportagens do segundo e terceiro dia do festival.
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