“Jogos da Noite” | Stig Dagerman

“Jogos da Noite” | Stig Dagerman

Pronúncia do norte

Referindo a importância da imaginação nas crianças, Stig Dagerman apontou que «a arte de ser escritor consiste, entre outras coisas, em não deixarmos que a vida, os homens ou o dinheiro nos façam romper com esse hábito» (de imaginar). Poucos conseguem condensar tão bem a essência da escrita, e em sentido lato, da arte. Menos ainda deixam tão valioso legado com uma vida tão breve.

Jogos da Noite (Antígona, 1992) compila contos retirados de “Nattens Lekar” (1947) – correspondendo ao título da edição portuguesa – e “Vårt behov av tröst” (1955) – “A nossa necessidade de consolo”. É considerada a fase em que a escrita do autor deambula pelos retratos íntimos da solidão, a par do seu recorrente motif: a angústia. As narrativas descrevem famílias abaladas pela morte e alcoolismo, personagens incompatíveis com a extroversão requerida pelo seu meio, assim como a dureza da ruralidade. Há até espaço para o completo delírio. Corresponde a um período de publicação tardio e póstumo, pois em 1954 Dagerman levou a cabo a sua “morte voluntária”, asfixiado por gases de automóvel.

Enquanto autor, possuía um talento literário privilegiado. Demonstrou uma capacidade notável de reconstrução de memórias, sonhos e fantasias, através de detalhes que o comum dos mortais facilmente deixaria passar ao lado. Acompanha, na medida do possível, o pensar das acções que se desenrolam, estruturando-as tanto com frases breves e pontuação constante, como também em extensos parágrafos que retratam o perfil psicológico dos personagens. Não querendo dizer com isto que todos os contos de “Jogos da Noite” sejam autobiográficos. É, ainda assim, difícil não confundir diversos traços e acções dos personagens com Stig, o autor.

Tendo em conta o sucesso que teve em vida, a ideia daquilo que teria para oferecer à literatura tem tanto de desconsolo como de incerteza. As obras que deixou dificilmente escaparão ao panteão dos escritores suicidas, aqueles que deixaram de encontrar alento até na palavra. Mesmo que continuamente aclamado graças à sua morte precoce – um fascínio mórbido de validação no grande e imprevisível plano das coisas -, não cabe aqui discutir a valorização do póstumo. Basta ler o que ainda não se leu.



There are no comments

Add yours

Pin It on Pinterest

Share This