“O Anão” | Par Lagerkvist

“O Anão” | Par Lagerkvist

Os (pequenos) monstros também escrevem diários

Às primeiras linhas de “O Anão” (Antígona, 2013), sentimo-nos de certa forma transportados para o mundo que o Conde de Lautréamont criou em “Cantos de Maldoror”, ainda que com menos raiva e um apurado sentido de humor, para além de uma refinada ironia.

Par Lagervist, escritor sueco laureado com o Prémio Nobel em 1951, oferece um diário de um monstro escrito no coração de uma corte renascentista italiana, retratando o lado perverso do espírito humano através da análise que faz de um poderoso príncipe: «De todos os seres que tenho encontrado, é o único que não desprezo. É um grande hipócrita», diz às tantas o anão que, apesar do seu pouco tamanho, recusa representar o papel de bobo.

O anão mostra-nos uma corte repleta de pessoas estranhas e de «intrusos que abusam da hospitalidade do príncipe.» Para o anão, quase tudo representa um motivo de desprezo: detesta aqueles que falam do sentido da vida, não é apreciador de comédia, detesta brincar e tem um ódio gigantesco pela princesa Teodora – e os seus muitos amantes -, que fez de si um confidente de peito.

A partir do momento em que entra em cena Bernardo, o mestre desenhista que disseca cadáveres e tem uma obra composta por desenhos inacabados, o anão abandona o recanto da sua solidão e dá vida aos seus delírios de grandeza, tecendo, por entre conspirações, traições, assassínios e a peste, um colorido tapete da existência humana, vista através dos olhos de um regime totalitário: «Os seres humanos são demasiadamente fracos e exaltados para forjarem o seu próprio destino.» Uma brilhante reflexão sobre o bem e o mal.



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