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Laetitia Sadier

ZDB, 19 de Março de 2010.

Laetitia Sadier olha pelo enorme vidro à sua direita que dá para a Rua da Atalaia, lá a vida continua a correr, diz. Dentro da ZDB, a vida também não parou, a azáfama chega a ser maior do que lá fora. Conversa-se sobre os mais variados temas, de cerveja na mão. A voz e a guitarra de cantora dos Stereolab é simples música de fundo para um agradável serão.

Supõe-se que o calor dentro do famoso “aquário” do Bairro Alto seja uma homenagem ao tropicalismo que os Stereolab souberam absorver na sua música e à bossa nova de filigrana que Laetitia Sadier pratica, e que isso leve boa parte do público para o pátio e para o bar.

Custa-me escrever mal sobre a ZDB. Pelo que sei não recebe subsídios da Câmara de Lisboa para ter a programação mais interessante e verdadeiramente alternativa da cidade (a par com a Filho Único) e a preços mais razoáveis do que as demais promotoras. E como é óbvio não tem culpa de quem vai lá, paga e prefere discorrer sobre os assuntos do dia a ouvir e deixar ouvir os concertos.

E o desconforto e o calor naquela sala são problemas de anos, mas o que é certo é que isso não ajuda à fruição de alguns concertos, sendo este um caso bem evidente. Laetitia Sadier deu um concerto curto e leve, de uma música que não exigia mais que um ligeiro balançar dos presentes, que não enchiam a sala. Ainda assim, suava-se e bufava-se lá dentro.

Laetitia Sadier apresentou canções novas, que deverão fazer parte de um álbum a solo a sair em Agosto. Nota-se que muitas ainda são esboços, cujos acordes a cantora tem de fazer um esforço para se lembrar, a que faltam acertar alguns pormenores, como os seus títulos, e o preenchimento de outros instrumentos, para lá da guitarra canhota e da voz doce e infantil e deliciosamente Pepé Le Pew de Laetitia.

Nota-se, porque ela o diz, sentada quieta na sua cadeira em cima do palco. De outra forma, jamais me ocorreria tal coisa. As canções ajustam-se bem à pouca roupa que trazem sobre os ombros e teme-se que algum acrescento venha estragar o equilíbrio. Daí a comparação à bossa nova, à bossa nova de João Gilberto.

A música de Laetitia lembra e faz esquecer os Stereolab. A melodia da voz é impossível de dissociar da banda, tal como o twee sempre a espreitar na pop dos anos 60 (a versão de uma canção do duo de irmãs Wendy and Bonnie) e as letras militantes ditas em voz de criança francesa a tentar falar Inglês. Faz esquecer, quando olho para Laetitia e isso não me faz lembrar mais ninguém.

Dito isto, fiquei com vontade de ver Laetitia Sadier noutra ocasião, num sítio mais confortável (de preferência sentado, que estou a ficar velho) e definitivamente com outro público. A falta de respeito não é crime e por isso ninguém é expulso da ZDB por estar a falar e a incomodar os outros, mas se calhar devia ser.



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