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“A Última Ilusão”, de Pedro Miguel Ribeiro

O peso das decisões

Citando a Suma de Livros (Penguin Random House, 2025), este livro é “uma história sobre ilusão e desilusão, sobre o peso daquilo que é dito, mas sobretudo daquilo que fica por dizer. Sobre julgamentos: terrenos e divinos. E sobre aparências.”

É exatamente isso que este livro, debut de Pedro Miguel Ribeiro na escrita literária, promete e entrega.

Um livro de estreia que se sente tudo, menos de estreia, mas que, ao invés disso, reflete um pensar cuidado e bem organizado da vasta, e diferenciada, experiência profissional do escritor, habilmente colocada no papel. Uma história com uma escrita detalhada, que tão bem ilustra cada cena e os seus respetivos intervenientes, bem como o contexto em que estes se situam, num tom crítico, mas poético, que numa mescla de didascálias, códigos misteriosos e artes mágicas, nos envolve numa teia de traumas, cicatrizes, muita dor e sofrimento, onde a ilusão da esperança é o que fere mais.

Como em todos os espectáculos de magia, há sempre um segredo. Quanto maior a grandeza do efeito final, mais difícil é admitir que tudo acontece graças a um simples truque.

Num enredo que alterna entre dois tempos, em que o passado se infiltra no presente, qual veneno nas veias, é-nos apresentado um espetáculo, um jogo de enganos, segredos, e perceções enganosas, com consequências trágicas.

Um jogo arriscado, onde oportunidades são dadas e desperdiçadas, onde o cruzar de linhas invisíveis e a tomada de decisões pode significar ser recompensado ou castigado, viver ou morrer.

Zephiro, o ilusionista de renome, planeia o seu ato final, a sua retirada dos palcos, mas o que se previa ser uma despedida teatral fenomenal, revela-se algo bem mais complicado.

Além deste grande ato de magia, dos seus truques e mistérios, temos uma história paralela, que revela a podridão humana, o sofrimento de muitos jovens órfãos, debaixo da alçada da Igreja. Seres fragilizados pela vida que já lhes foi madrasta, e que se deparam com uma escuridão ainda mais profunda, onde o erro de um, significa o erro de todos, onde o mínimo sinal de esperança é esmagado de forma abrupta e extremamente violenta.

Os intervenientes são pessoas falhas, destruídas, que por mais que tentem recolher todos os seus pedaços dispersos, e ignorar a dor do passado, se vêem confrontadas com as suas decisões, com os seus erros, com os seus fantasmas; onde alguns se julgam o verdugo e o carrasco, sem serem detentores de todas as provas, desconhecendo a crua realidade de quem estão a julgar.

Onde o que vemos, pode ou não ser real, qual ato ilusório.

Faz parte do contrato do ilusionista com o público que ele seja alguém que lhe sirva o impossível. Reparem: é o impossível que estamos a ver. Mas está a ser-nos servido… … em bandeja de prata.

A Última Ilusão, de Pedro Miguel Ribeiro, é um todo em um. Ao longo de 288 páginas, repletas de detalhes, raciocínios cabalistas, referências bíblicas e personagens lendários da mitologia grega, os leitores, como público deste espetáculo, é envolvido num puzzle inquietante, tratado como um personagem, mero espetador in loco, que, qual mirone curioso, observa todos os pequenos grandes atos, e tenta juntar as peças, até que, por fim, tudo culmina numa intensa e surpreendente, grande ilusão.



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