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Mensalidade Mana

Daniel Quintã, autor do podcast e da mensalidade n’O Meu Mercedes, em entrevista.

Pouco se ouve falar da Ribeira a nível cultural por estes dias. Mas para 2012, pelo menos uma atracção já tem: a mensalidade de Mana, uma iniciativa que, ao longo de oito sessões (a iniciativa é interrompida entre Junho e Setembro), vai trazendo nomes sonantes do Indie nacional para O Meu Mercedes É Maior Que O Teu, venerável ancião do estilo. Sentados numa esplanada da Ribeira, com um potpurri de  êxitos das últimas décadas a passar na televisão como pano de fundo, falámos com o auteur da iniciativa.

Como surgiu o podcast?

A primeira sessão do podcast é publicada em Agosto de 2010, com os Aquaparque. Eu criei o Mana porque desde o início queria organizar na minha cidade concertos com estes oito nomes que convidei, mais um ou outro que por incompatibilidade de agenda ou desinteresse não alinharam no convite. O meu objectivo inicial era organizar concertos, só que eu não conhecia nenhum destes nomes pessoalmente, à excepção dos Aquaparque e dos Tropa Macaca (já tinha organizado concertos deles em Braga). Todos os outros não conhecia pessoalmente, não era amigo, não tinha falado por e-mail, a única coisa era que eu era admirador do trabalho deles e se não tinha os discos todos, tinha os discos quase todos.

Mas então porquê começar pelo podcast?

Porque o podcast acaba por ser uma forma de me dar a conhecer a mim, de nos pôr em contacto e de eu demonstrar-lhes que conhecia efectivamente o trabalho deles muito bem. Eles todos a início entravam sempre um bocado de pé atrás, tipo “quem é este gajo que vem agora assim do nada ter comigo, pedir-me para me entrevistar e para fazer esta sessão com cedência de material inédito”, que era a estrutura que eu tinha delineado para o podcast.

Porque é que escolheste o Mercedes como palco para a mensalidade subsequente?

O sítio óbvio aqui no Porto seria o Passos Manuel; quando estes músicos vêm tocar ao Porto por norma é ali que param. Mas para mim tinha uns senãos: o facto do auditório ser com lugares sentados, e eu queria assistir aos concertos em pé; o Mercedes parecia mais adequado a nível de tamanho, estamos a falar de concertos para um público reduzido; e por último havia também um lado afectivo com o Mercedes, que eu nunca tive muito com o Passos, porque foi no Mercedes que eu comecei a sair à noite no secundário, e esta zona acaba por ter um lado mais afectivo para mim do que a zona do Passos Manuel.

Obviamente que, sendo as bandas que são, não vais estar a pensar com uma visão estritamente comercial, mas há um risco maior em lançar uma iniciativa deste tipo na Ribeira e não na Baixa…

Sim, porque actualmente a Ribeira está um bocado deserta, não é? E no fundo a escolha do espaço acaba por estar também relacionada com a zona, porque eu nunca fui grande fã da actual movida a que assistimos hoje na baixa. Parece-me um bocado vazia de conteúdos, as pessoas simplesmente estão no meio da rua a beber uns copos, não há nada de música ou de cultura associado. Foi também uma forma de organizar um concerto com malta nesta zona, quem vier para aqui é malta que está realmente interessada em assistir a isto, é malta que se interessa realmente por música, não são simplesmente pessoas que estão ali no meio a beber finos e param para ver o que se está a passar.

Há algum fio condutor para as bandas escolhidas, para além do teu gosto musical?

Acho que não. O único fio condutor que encontro será porventura as regras que coloquei para convidar alguém; não convidei ninguém de quem não tivesse os discos todos ou pelo menos quase todos. Acaba por ser também uma reacção de oposição àquilo que eu verifico no jornalismo actualmente, na minha geração de jornalistas, que é essa malta que de grosso modo anda por aí a escrever nos sites como o Ponto Alternativo, Bodyspace, etc… hoje em dia temos a impressão que conhecemos uma banda ao ouvir uma ou outra música num Myspace ou num YouTube ou numa rede social qualquer, quase que nascemos com essa ilusão. E depois vê-se críticas a discos e vê-se entrevistas a músicos que não têm profundidade rigorosamente nenhuma, que se vê que são feitas, salvo raras excepções, por pessoas que tiveram a ver à pressa (porque hoje em dia não temos tempo) informação na diagonal sobre o artista e fizeram-lhe ali umas perguntas, se calhar para promover um disco que ele lançou ou um concerto que ele vai dar. Este trabalho que eu fiz com o podcast acaba por ser também uma reacção a tudo isso, porque eu tenho um passado jornalístico e acaba por ser também uma forma de demonstrar que é possível as coisas serem bem feitas. Se calhar exige tempo, que é coisa que as pessoas hoje em dia não têm, exige algum investimento próprio, eu tinha todos os discos comprados do meu bolso, não eram eles que me enviavam os discos para casa. Mas acho que ao termos acesso a tudo é preciso cada vez mais sabermos aquilo que queremos. E eu efectivamente quando parti para o Mana já sabia de fio a pavio aquilo que queria, já tinha tudo delineado.

Mencionaste que houve algumas bandas que disseram que não. Há alguém que te tivesses mesmo empenhado em incluir, mas não deu?

Sim. Vou citar os Gala Drop, porque foram aqueles que estavam realmente interessados em alinhar, e isso só não aconteceu porque os timings de promoção do novo disco deles não coincidiam com os que eu queria para publicar a sessão deles. De todos os nomes que eu convidei e que não alinharam foram aqueles com que fiquei com mais pena, não só porque é uma banda que admiro muito, uma das minhas bandas preferidas hoje em dia, mas também pelo facto de eles estarem interessados.

Como achas que tem sido a recepção do público?

Foram duas noites bastante positivas, tivemos sempre em média cinquenta pessoas a assistir, o que para este tipo de concerto e numa zona como a Ribeira, que como já dissemos está meia deserta, acho que é bastante positivo. O Mercedes tem uma lotação de cerca de oitenta pessoas. Por parte dos media a coisa também tem sido bem recebida, tem sido divulgada, estou extremamente satisfeito até agora.

Quando a mensalidade estiver completa, estás a pensar em avançar para uma segunda ronda?

Nestes moldes creio que não, porque é uma tarefa demasiado esgotante para estar a ser desenvolvida por uma pessoa só. Sou eu que tenho que coordenar tudo com o espaço, com os músicos, com os jornalistas. Não raras vezes tenho que insistir com as pessoas para que me respondam, às vezes parece que me estão a fazer um favor. Isto também para dizer que apesar de todo este discurso bonito que eu tive até agora, na prática depois há muitas coisas que são complicadas de gerir, que são difíceis. Chegas ao fim da noite e não tens lucro. Não tem nada de glamour isto.

Mas é uma postura assumida da tua parte, certo? Um projecto individual, baseado no teu gosto musical…

Já pensei em arranjar mais pessoas. isto acaba por ser sozinho porque não tenho amigos que tenham os mesmos interesses que eu. Para este concerto até tomei a iniciativa de pedir apoios a outras promotoras do Porto, como a Crónica, a Amplificasom e a Soopa, para darem apoio à divulgação, e não os conheço pessoalmente. Não é política minha o do it yourself ou não querer a ajuda de ninguém. Se passar a conhecer alguém e quiserem trabalhar comigo, claro que tem que haver um entendimento estético, mas se houver, tenho todo o prazer.



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