Meo Kalorama 2026 | Dia 2 (29-08-2026)
Texto por Miguel Barba e fotografia por Graziela Costa.
Dry Cleaning
Às 16h10 é quase criminoso, mas a Florence Shaw dá conta do recado com o seu registo grave em modo spoken word enredado num post rock sempre inebriante. Entre palavras os seus longos cabelos vão ocupando várias posições, sem que Welsh perca a sua compostura por um momento que seja. “Secret Love” é o álbum novo que trazem para mostrar, e que contou com Cate Le Bon na produção, que por sua vez actuou em Coura há bem pouco tempo. Mas voltemos aos Dry Cleaning e em especial a Welsh, que nos consegue meter a pensar se o que estamos ali a escutar são conversas daquelas que temos todos dentro da nossa cabeça, mas que por vezes ocorrem em voz alta e nos fazem parecer um pouco malucos. É aqui que a música entra, como um perfeito elemento agregador, capaz de fazer deste registo a coisa mais natural do mundo. A estreia em Lisboa vem com um bombom; canções dos primeiros EPs, onde a crueza é mais evidente, mas a matriz que vem sendo refinada desde então já se anunciava. «Scratchcard Lanyard» surge com novos arranjos. No final, duas certezas: mereciam um slot mais tardio e há muito que já se deviam ter estreado em nome próprio. O concerto foi óptimo, ainda para mais sabendo que o fizeram com instrumentos emprestados pelo festival, porque os seus ficaram algures num aeroporto de Londres.
Tyler Ballgame
O norte-americano traz uma folk leve, que claramente busca inspiração em nomes maiores como Nick Drake ou Elliott Smith, mas com as devidas distâncias, embora a boa voz de Tyler jogue a seu favor. O resultado, embora não soe pretensioso, não tem a força para causar impacto perene. As canções são consistentes, mas fica sempre no ar que falta aquele detalhe diferenciador; o que torna uma canção razoável em algo mais, mas fica a sensação de que há potencial para o conseguir no futuro. Ficamos com um agradável concerto de folk-rock, em que o fado e a saudade foram abordados fruto das origens familiares portuguesas (mesmo que quase circunstanciais, embora o apelido Pereira esteja presente no final do seu nome), sobre um sol alto e quente que levou a que toda e qualquer língua de sombra tivesse uma procura imensa. E no que ao concerto diz respeito, não há mal nenhum nisso e foram 55 minutos passados de forma agradável que terminaram com um cover de Mariah Carey de «I Can’t Leave».
Bruno Pernadas
Pernadas apresenta-se em palco com a sua big band, por si só uma constelação de estrelas onde o talento transborda. O álbum de 2026, “unlikely, maybe”, que introduziu o elemento voz no já muito diversificado universo musical de Bruno Pernadas, provou mais uma vez estar em constante expansão. No parque da Bela Vista tivemos o privilégio de ter Maya Blandy em palco para interpretar algumas das canções do belíssimo “unlikely, maybe“, por sinal um título que encerra em si uma enorme ironia. O melhor de um concerto de Bruno Pernadas é que nunca ficamos quietos no mesmo sítio; é certo que a canção seguinte nos levará sempre numa direcção distinta, sempre imprevisível. Tanto podemos escutar reaggae, para no momento seguinte ser o rock a nortear e depois ser o jazz, porventura um fio condutor, dizer presente e sempre com espaço para o improviso, para respirar, para ser livre.
Criolo, Amaro & Dino
O espaço revelou-se curto, com as limitações de visibilidade que o próprio tem, impedindo muitos de ver o concerto em boas condições. Em palco temos um melting pot de influências de culturas diferentes. De uma forma simplista podemos enumerar três ou quatro, mas na realidade são mais, é a África, é a América e a Europa. Sentimo-nos em casa, em Lisboa, mas ao mesmo tempo temos um pé no Brasil, outro em Cabo Verde e ainda metemos uma mão no Caribe porque também cabe aqui. Inclusão em forma de música.
A origem deste projecto remonta à nomeação nos Grammy Latinos de 2024, na categoria de “Melhor Canção em Língua Portuguesa”, com o tema “Esperança”, que reuniu o rapper Criolo, o pianista Amaro Freitas e a voz de Dino D’Santiago. Essa colaboração, impulsionada pelo reconhecimento internacional, evoluiu para um álbum completo de originais. “Criolo, Amaro & Dino” é o resultado desse encontro criativo, em que Brasil e Portugal se cruzam através de um exercício melódico e lírico desenhado a três mãos. Os três artistas, cada um com um perfil artístico distinto — Criolo como figura central da cultura urbana brasileira, Amaro Freitas como personalidade inovadora do jazz contemporâneo, e Dino D’Santiago como vocalista — transformaram uma participação pontual numa obra que une as duas margens do Atlântico. O álbum nasce do desejo de consolidar essa parceria, convertendo uma homenagem em território comum onde as culturas lusófonas se encontram e dialogam numa só narrativa musical transatlântica.
A ligação entre os músicos e o público cresce canção após canção, ora na forma de um abraço enorme e apertado, ora numa vontade imensa de dançar connosco, com todos. Fogo Lento foi um exemplo perfeito disto.
Foi foda e, na hora do pôr-do-sol, ao aproximar-se do lusco-fusco, tornou-se ainda mais bonito.
Joshua Idehen
O objetivo é apenas oferecer divertimento. O ambiente é de euro dance dos 90, com Idehen a usar um registo falado (nem chega a ser spoken word) e a dançar como se não houvesse amanhã. As vozes que cantam encontram-se à esquerda de Idehen, um homem (Patrick) e uma mulher (Sara) que coreografam e cantam os coros ou o que se pode assemelhar a isso. Atrás de uma mesa com um computador e mais alguma parafernália electrónica está Ludwig, sueco de nascimento, responsável pelo beat. Por vezes o simples é suficiente, havendo boa disposição e um espírito positivo… A depressão não pode atingir um alvo em movimento e a vida é feita de segundas chances. Acreditamos. Pelo meio há quem dance, há quem agite o corpo e há quem sacuda os ombros. «Mum does the whashing» é uma simples metáfora sobre sistemas políticos, económicos e sociais. Há religião e há exercício físico, com direito a fita na cabeça e capaz de transformar a plateia num ginásio. São conselhos de vida, quase como uma versão mais actualizada e abrangente do «Wear Sunscreen», celebrizado pelo Baz Luhrman. E no final «Once in a Lifetime», de David Byrne. A surpresa do dia, no melhor dos sentidos.
Mind Enterprises
No palco Panorama decorre uma celebração do Italo Disco, em que a dado momento escutamos os resultados de uma jornada Série A. Entre os sintetizadores há bebida, talvez Campari ou Martini, e tabaco. Há um imaginário todo ele transportado para este recanto do Parque da Bela Vista. Os Mind Enterprises emergiram de forma inesperada: um balcão de cozinha tornou-se o estúdio onde dois músicos italianos, Andrea e Roberto, construíram uma fanbase de culto. Através de pequenos vídeos online, celebram a cultura e o imaginário vintage italiano utilizando caixas de ritmo e sintetizadores. A sua proposta sonora bebe da década de 1980, combinando grooves nostálgicos com batidas repetitivas e hipnóticas. Linhas de baixo inspiradas na música disco dão movimento às suas composições dançáveis. Para os próprios artistas, “cada instrumento tem um som único e distinto”, sendo estes equipamentos analógicos a verdadeira fonte de inspiração que define a identidade musical do duo. O Palco Panorama tornou-se o seu balcão e a festa e boa disposição imperaram.
Sam the Kid com Orquestra e Orelha Negra
É uma celebração que acontece em casa para Samuel, rodeado de amigos e de frente para milhares de fãs, que acompanham palavra a palavra, rima a rima. A visita ao palco Sagres foi breve porque Lauryn Hill se preparava para subir ao palco MEO e era imperioso encontrar o sítio adequado para presenciar em pleno esse bocado de história.
Ms Lauryn Hill
O palco tem dois níveis, com vegetação, por onde a banda se vai distribuindo. Os primeiros quinze minutos são para passar o tempo, apenas com o soundsystem e uma speaker que vai pedindo que o público faça barulho. The Score foi editado há 30 anos e é por aí que se começa, com Hill a fazer uma entrada em grande e a surgir nos ecrãs, até aí desligados. «How Many Mics», «Zealots» e «The Score» surgem diferentes, mais portentosas, mas menos inebriantes, não só porque passaram 30 anos, mas também pela forma como são interpretadas, com os instrumentos a desempenharem um papel fundamental. No ecrã, as imagens que invocam o passado da banda alternam com imagens que invocam lutas sociais ou história da comunidade negra dos Estados Unidos da América. De repente entramos nos domínios de “The Miseducation of Lauryn Hill”. Escutam-se «Everything Is Everything», «Lost Ones», «Ex-Factor» e «To Zion», sempre com um tempo diferente e sem aquela aura soul que lhe conferia uma beleza peculiar. Depois Hill dá o palco, primeiro aos filhos, Zion e YG Marley, netos da lenda com o mesmo apelido. É um family business com raízes jamaicanas, que terá sido apreciado mais por uns do que outros. Até ao final, com os Fugees a serem novamente invocados ao som de «Killing Me Softly With His Song», «Ready or Not» e «Fu-Gee-La», com Ms. Lauryn Hill e Wyclef Jean, houve ainda tempo e espaço para Jean poder mostrar a sua arte em palco. No final, um concerto agridoce, com momentos agradáveis e outros que eram perfeitamente evitáveis.
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Leiam aqui as reportagens do primeiro e terceiro dia do festival.
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