Concerto Motorama

Motorama @ Caixa Económica Operária, Lisboa

Da Rússia com pudor

Para muitos dos que descobriram os Joy Division na sua infância, ou aqueles que mais recentemente viram o filme “24 Hour Party People” – título sacado a um tema dos Happy Mondays -, haverá talvez um desejo comum: o de regressar a uma dessas noites num clube inglês com ar antigo, cercado pela penumbra, abraçado pelo fumo, deixando-se levar numa corrente eléctrica e por um som longe de estar na perfeição mas, ainda assim, capaz de fazer estremecer o esqueleto, impelindo a uma dança com certo ar esquizofrénico.

Pois bem, quem ontem à noite andou pela alfacinha Caixa Económica Operária teve um vislumbre de uma dessas noites à inglesa, algures entre o pós-punk e a new wave, com a passagem dos russos Motorama, banda que conta já com uma discografia apreciável que inclui dois longas-duração, um outro par de EP`s e uma mão-cheia de singles.

Em palco a banda assume uma postura distante, a roçar o inacessível, como se transpusesse para aí a natureza fria e gélida de um país que está bem presente nas suas letras, acompanhada de referências literárias com maior ou menor grau de obscuridade.

Há teclados e sintetizadores vibrantes, um baixo de ar grave tocado à palheta, guitarras entre a candura e o mostrar de garras afiadas e uma voz cavernosa acompanhada, de muito perto, por uma bateria precisa. É inevitável – pelo som e pela voz e gestos de Vladiszlav Parshin – não pensarmos no Joy Division mas, com os Motorama, o drama é acompanhado por uma música que, a espaços, soa a bailarico de festas populares, como se a tristeza pudesse – e merecesse – ser celebrada. Um pouco como em “A Papoila e o Monge”, essa pérola poética de José Tolentino Mendonça, um elogio à solidão e uma ode à contemplação do mundo natural.

Mesmo que a cerca de meio da actuação a coisa tenha esfriado, como se uma corrente vinda de leste tivesse entrado na sala aproveitando uma janela mal fechada, a recta final e o encore chegaram de forma triunfal. Subimos aos “Alps”, dirigimo-nos “To The South”, lançámos a “Anchor” e sentimos o “Wind In Her Air”. Para ser perfeito só faltaram mesmo os shots de vodka a passarem, de mão em mão, servidos em bandejas de prata.

Uma pequena nota para a grande primeira parte dos leirienses First Breath After Coma, autores de um rock progressivo pintalgado de sonhos pop. Fiquem de olhos nestes rapazes.

Foto: Concha



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