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Neko Case @ São Jorge (19.06.2019)

Aquela voz simplesmente magnífica.

Na Sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge os lugares vão sendo ocupados muito lentamente. Rapidamente se percebe que a sala não vai estar cheia mas também vamos chegar à conclusão que isso não importa mesmo nada. O palco está salpicado por guitarras eléctricas, acústicas e por um piano. Salta à vista a ausência de bateria ou qualquer outro instrumento de percussão. Dentro de alguns minutos vamos perceber que isso não estava nos planos e que por motivos de força maior o concerto que Neko Case nos vai apresentar, vai-se basear em redor das cordas e das teclas. E vai chegar.

Nos minutos que antecedem o início do concerto, são colocadas folhas pelo chão com o alinhamento. Não conseguimos ler mas a lista parece extensa e isso deixa-nos com um sorriso na face. São 21h10 quando Neko Case e a banda que a acompanha, ou parte dela, neste caso, entram em palco. Há sorrisos de parte a parte e vai ser assim durante todo o concerto entre as canções que nos vão deixar de coração cheio e os dois dedos de conversa que têm lugar entre algumas canções, seja para ganhar tempo, seja só porque faz sentido estar a ter aquela conversa, naquele lugar e naquele momento. Há coisas assim. E depois há a voz de Neko Case, magnífica.

«Hell-On», tema homónimo do mais recente álbum de Case é a canção com que abre o concerto. Segue-se «Man», canção incontornável do álbum de 2013, “The Worse Things Get, The Harder I Fight, The Harder I Fight, The More I Love You”, aqui tocada a quatro guitarras, conferindo-lhe um toque único na já sua natureza única: “I’m a man / That’s what you raised me to be / I’m not an identity crisis / This was planned”. À terceira canção visita-se “Blacklisted”, ao som de «Deep Red Bells», com as guitarras a criarem sucessivas camadas que assentam umas nas outras na perfeição. E a voz? Já falei dela? Magnífica!

«Bad Luck» é um hino à má sorte e sobre como nós muitas vezes acabamos por ter de a aceitar. “So I died and went to work / It’s not as bad as I thought it would be / But it’s still pretty bad luck”. Quem nunca? “In Watermelon Sugar” é um livro passado numa América pos-apocalítica. Margaret e Pauline são duas das personagens; a primeira azarada e a segunda afortunada e “everything’s so easy to Pauline” em «Margaret Vs Pauline». «Last Lion of Albion» é (mais uma) amostra da força que estas canções têm, mesmo sem a percussão a acompanhar.

«Favorite» do álbum de 2001, “Canadian Amp” é apresentada como uma canção que já não era tocada há muito tempo e que, segundo Case, “we could shit the bed”. Só que não.. É que aquela voz… é magnífica. Enquanto enrola o cabelo sobre a cabeça, para logo voltar a cair sobre as suas costas joga-se a «Calling Cards», porque o amor pode existir mesmo na ausência um do outro. «Middle Cyclone» dá também nome ao álbum que completou em Março a bela idade de 10 anos e continua a ser uma bela canção sobre o facto de todos nós precisarmos de amor e de nos sentirmos amados.

E aquela voz… magnífica!

Os elogios a Lisboa não faltaram, com o próprio teclista a sugerir abandonar a banda para ficar por ali. «Hex» de “The Tigers Have Spoken” encerra em si uma brisa country irresistível e «Halls of Sarah», porventura uma das mais belas canções de “Hell-On” é interpretada com uma beleza ímpar. Juro que se fechar os olhos ainda consigo ouvir Neko Case cantando “Sarah”. «Maybe Sparrow» de “Fox Confessor Brings the Flood” relembra-nos que as canções de Case não têm meio termo. Aquela voz não o permite. Leva tudo à frente.

Seguem-se «Winnie» e «Train From Kansas City», esta última naquele que foi, provavelmente, o registo mais rockeiro entre todas as canções. «The Pharaohs» e «Never Turn Your Back to Mother Earth» levam-nos de volta da “Middle Cyclone” e marcam a saída de palco, antes do regresso para o inevitável encore. «I Wish I Was the Moon» foi, é e sempre será uma magnífica canção sobre o final de uma relação e o vazio que pode deixar em nós. Já «Hold On, Hold On» é um conjunto de janelas abertas directamente sobre a vida de Neko Case. A despedida é feita da mais bela canção escrita para uma rapariga, no contexto do punk rock dos anos 70, segundo Neko Case, e cujo título me escapou (lamento!).

Que o regresso não leve tanto tempo. E não importa se a banda vem toda ou não é aquela voz… sim, é magnífica.



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