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NOS Primavera Sound | DIA 2 (08.06.2018)

Se no primeiro dia fomos abençoados pela paragem da chuva, na Sexta-feira, praticamente à mesma hora, irrompeu o tão desejado sol, que atribui novas cores ao cenário proporcionado pelo sempre impressionante Parque da Cidade.

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Enquanto ao fundo ecoava o poder dos Idles, durante o tempo em que nos aprontámos para mais uma jornada, o primeiro acto ao sol a que assistimos foi Amen Dunes, no palco Seat. O projecto de Damon McMahon aproveitou a ocasião para apresentar temas de “Freedom”, o último registo de estúdio, do qual vários temas foram escritos em Lisboa. Aliás, apenas uma das canções, «Splits Are Parted», não pertence ao referido álbum.

Mantivemo-nos na mesma localização para testemunharmos a actuação de Mattiel, banda que acabou por fazer o seu próprio soundcheck perante o ainda escasso número de presentes. Mattiel Brown, a cabecilha da banda oriunda de Atlanta, brincou inclusivamente com o assunto, agradecendo a quem tinha assistido à preparação do som. Dona de uma prodigiosa voz, Mattiel vai brilhando pelas diferentes correntes de rock que a sua banda vai percorrendo, desde o mais bluesy, ao mais contido, até ao mais puro. Uma surpresa bastante válida.

Quem não é surpresa para ninguém (ou eventualmente quase ninguém) são as Breeders, que ressurgidas das cinzas patrocinaram uma excelente sessão de Remember the 90’s, pese embora tenham apresentado canções novas. Isto porque a atmosfera de “All Nerve”, o disco que assinala o regresso das manas Deal, aprofunda muito do que conhecíamos. Desde logo, os jogos vocais nos vão soando familiares, mesmo em canções que desconhecemos ou não nos são tão familiares. Kim Deal continuou a perguntar quase em todos os interregnos se estava “tudo bem” com o público, ao passo que Kelley apenas se manifestou cantando «I Just Wanna Get Along». «Driving on 9» fez toda a gente bater o pezinho e mexer as ancas, como que respondendo à pergunta da vocalista. «Off You», com dois baixos em palco, continuou a embalar-nos o coração. A banda sugeriu que, caso não estivessemos satisfeitos com a qualidade do concerto, devíamos aproveitar a presença de Steve Albini (que tocaria mais tarde com Shellac) para apresentarmos as nossas queixas, dado que é um dos seus grandes influenciadores. Mas, suma, diríamos que está “tudo bem” com as Breeders, que fecharam a digressão europeia na Invicta.

Na nossa primeira deslocação ao palco Pitchfork, que apenas entrou em acção neste segundo dia, continuámos em ambiente familar com as gémeas Díaz, que respondem por Ibeyi (que significa precisamente “gémeas” em iorubá) no universo musical. A dupla franco-cubana é bastante energética em palco, incentivando constantemente o público, e tornando o seu repertório, muitas vezes acústico, sempre acutilante. Não admirou portanto que o coro popular em «Deathless» ecoasse tão alto. Outra ovação especial registou-se aquando da apresentação do tema «No Man Is Big Enough For My Arms», que inclui um sample dum discurso de Michelle Obama acerca de comentários machistas por parte do actual presidente dos E.U.A. Ao passo que Lisa-Kaindé se ocupa das vocalizações, teclas e programações, a irmã Naomi (a quem dedicou o sentido ) trata das percussões, essecialmente por meio do cajón. Óptima estreia em solo português.

Após retemperarmos energias com um jantar bem completo, voltámos ao recanto do palco Pitchfork para registar nova estreia em Portugal, desta feita dos Superorganism. Por vezes parecem a Beat Band 2.0, noutras uma banda indie criada numa sala da pré-primária moderna. Tudo isto no bom sentido, obviamente. As projecções que abarcam todo o palco, literalmente, injectam ainda mais colorido à actuação da banda sediada em Londres, e vão apresentado o imaginário do qual brotam as suas composições: desde a tecnologia à Tóquio natalda vocalista Orono Noguchi. Orono demonstra todos os predicados duma frontwoman, do alto dos seus 18 anos. Revela-nos que apesar da grande multidão que acorreu ao concerto, encontra-se extremamente relaxada, algo que o seu registo vocal confere. Ao longo «Something for Your M.I.N.D.» despachou praticamente uma sidra, aproveitando o refrão pré-gravado que ia entretendo o público. Gerou ainda alguma celeuma ibérica ao considerar Portugal “uma Espanha mais relaxada”. No final de contas os Superorganism estiveram q.b. à altura do hype que os tem acompanhado quase desde o nascimento do octeto.

Ainda no Pitchfork evoluiria seguidamente Thundercat, numa aparição bastante desejada, em especial desde o lançamento do aclamado “Drunk” em 2017. Assim o confirmava a vasta plateia em redor do palco. Stephen Lee Bruner brilha com o seu baixo permanentemente ao longo do concerto, quer emita uma complexa linguagem jazzística ou nos adoce os tímpanos com a sua soul.

A meio da viagem proposta por Thundercat abandonamos para ir até à outra ponta do recinto presenciar o espectáculo de Fever Ray, no palco Seat. E nesta situação usamos o termo “espectáculo” propositadamente, dado que com os seus fatos, coreografias e cenário, a actuação do conjunto sueco acaba por ser mais que um simples concerto. Damos por nós a fitar atentamente os movimentos em palco, quase que desligando inconscientemente da parte sonora, que no entanto está sempre presente e é a locomotiva para todo o universo fantástico de Fever Ray. Produto da imaginação de Karin Dreijer, também conhecida pelos The Knife, a digressão actual coloca o holofote no trabalho publicado no ano passado, “Plunge”, o segundo do projecto. Foi notório o culto que Fever Ray detém por estas bandas, dado não só o número de espectadores, como também pela dedicação que iam extravasando ao longo do show.

Reportagem do primeiro dia está aqui.
Reportagem do terceiro dia está aqui.



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