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NOS Primavera Sound 2017 (10.06.2017)

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As comparações de Núria Graham com St. Vincent são compreensíveis, curiosamente num palco onde a segunda já tocou no passado. Quando chegamos ao Palco Super Bock a Catalã já arrancou com a sua actuação e está a jogar-se ao cover de «Toxic» de Britney Spears, apenas reconhecível pela letra, tal a roupagem rock que ganha. É um concerto curto, razão pela qual Graham opta por abdicar da conversa em prol das canções, como faz questão de explicar. Trata-se de um rock simpático, de alguém que vem conseguindo incorporar influências nas suas canções mas que ainda procura uma identidade. Felizmente tem tempo para o conseguir.

Os Songhoy Blues têm os blues do Mali a pulsar-lhes nas veias. É um som inebriante o que sai daquelas guitarras, rápidas, frenéticas e hipnotizantes. Formados em Bamako, os elementos dos Songhoy Blues têm histórias de vida complicadas, fruto de problemas sociais e políticos que continuam a ser demasiado recorrentes naquela zona do globo. Com base nessa premissa a música acaba operando como uma forma de canalizar e exteriorizar os problemas, dramas e frustrações de cada um. Elemento essencial nesta equação é também o público, pela forma como abraça as canções e dessa forma, simples mas honesta motiva e galvaniza o colectivo Maliano. O entusiasmo cresce exponencialmente e todos, sem excepção, ganham.

Elza Soares encara a plateia imensa, sentada no trono, do alto dos seus 79 anos. Cada canção é uma história e uma lição de vida e ela tem muitas para partilhar. Nós somos uns privilegiados por podermos estar ali, num belo final de tarde a ouvi-la a si e à sua banda, de sorriso no rosto. O samba está na génese mas a magnífica banda que a acompanha tem a capacidade de levar as canções para a frente e com isso abrir-lhe as portas a todo um novo público sedento de conhecer as suas histórias. Letras sobre passado e presente, com uma janela aberta para o futuro. Porque alguns dos problemas que o Brasil tinha à 30, 40 ou 50 anos continuam a existir e Dona Elza faz questão de nos relembrar. Seja o racismo em «Coração do Mar» (logo a abrir) e «A Carne (Negra)», a violência sobre as mulheres em «Maria da Vila Matilde» ou simples e genuína gratidão em «A Firmeza?!» porque também é importante lembrarmo-nos destes sentimentos, mesmo no mais negro dos períodos. Porque esquecer é deixar morrer e ser conivente. Ficou no coração.

2017 foi ano em que os Shellac de Steve Albini se mudaram do Palco Pitchfork para o Palco . (finalmente!), onde a força daquela guitarra, daquele baixo e daquela bateria se puderam finalmente soltar e a distorção pode cavalgar livremente pelo recinto.

Mitski. Quando começa a sacar os acordes da guitarra, no Palco Pitchfork e a cantar, tem quatro ou cinco focos de luz a incidir sobre si mas voluntariamente ou não, desvia-se deles. É daquelas pessoas que parece deliciosamente desconfortável com a atenção que recebe e isso funciona (estranhamente a seu favor). Estas canções podiam ser sobre qualquer um de nós. Desamores, desencontros e frustrações envoltas na mais deliciosas ironias e (porque não dizê-lo) envoltas num sentido de humor mordaz, como «I Bet On Losing Dogs» ou «Best American Girl» (que apresenta como sendo a canção que se poderá arrepender-se de ter escrito daqui a uns anos) são exemplos perfeitos disso. Pelo meio da actuação surge o mais sui generis elogio ao nosso país (e ao Porto em particular), quando diz que toda a comida é boa e isso não é normal (as palavras foram estas). Ao que acrescenta que a comida é “mesmo muito importante” para si. «Townie» mantém a toada que é fechada com selo de ouro com «My Body’s Made of Crushed Little Stars». “I wanna see the whole world / I don’t know how I’m gonna pay rent”. Já se sentiram assim, não sentiram?

Os Metronomy foram uma agradável surpresa, não pela descoberta mas sim pelo concerto que ofereceram. Enérgico, dinâmico e que não se deixou cair em monotonias e repetições. Para isso muito contribuiu a postura da banda, sempre a trocar de posições em si, sem problemas em assumir os papéis uns dos outros quando necessário. «Back Together» marcou o tom. Disco, rock, pop e electrónica, combinados de forma perfeita e natural. Juntos mas devidamente compartimentados ou como cantam em «Old Skool», “You keep your friends, I’ll keep my friends”. Não há pausas entre canções; a última canção liga sempre à próxima de uma forma natural até chegar à sequência final e perfeita para a ocasião; «Everything Goes My Way», «The Look» e «Reservoir».

As canções de Weyes Blood, têm uma aura etérea à sua volta. E é isso que as torna realmente únicas e especiais. As poucas pessoas no Palco Pitchfork partilham desta opinião e é por isso que ali estão. A breve visita permite-nos escutar «Seven Words» e «Be Free». E regressamos a Metronomy a pensar que era tão bom estar em dois sítios ao mesmo tempo.

Basta que os Japandroids comecem a tocar para perceber que dois, é a conta certa. Guitarra, bateria. Quem disse que era preciso mais alguma coisa está enganado. «Near to the Wild Heart of Life» é a primeira canção. Daí para a frente foi sempre a incendiar. Um compêndio sobre como se pode fazer punk sem tretas, versão norte-americana (o continente, não o país). É fácil esquecermo-nos que são apenas duas pessoas em palco. Antes de começarem «North East South West», fica o anúncio de que será o próximo avanço e que o vídeo foi filmado no Porto, com algumas das imagens a serem recolhidas ali mesmo. Para o final fica o hino de “Celebration Rock”, «The House That Heaven Built». Nós saímos dali ofegantes.

As semelhanças dos Operators com os Wolf Parade não são mera coincidência, ou não seja Dan Boeckner um dos vocalistas da banda canadiana que voltou recentemente ao activo. O som que escutamos é o cruzamento dos Wolf Parade com os New Order, em versão negra e paranóica. O alinhamento gira em torno de “Blue Wave”, o álbum editado em 2016 e onde pontificaram «Control», «Cold Light» ou «Evil». Negro, soturno e cativante.

Até para o ano. 7, 8 e 9 de Junho. No mesmo sítio.

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