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NOS Primavera Sound | Dia 1 (07.06.2018)

Dando razão à previsão meteorológica, a manhã de Quinta-feira no Porto foi continuamente chuvosa, ainda que a intensidade não extravasasse. O cenário era tão cinzento que mal sentíamos estar a escassas horas de mais um NOS Primavera Sound, dono de um suculento cartaz para nosso inteiro gáudio.

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Num mundo cada vez mais sujeito a fenómenos naturais nunca antes vistos, o público que se deslocou cedo para o recinto do festival assistiu a mais um desses eventos: o fogo a apagar a chuva. Mal soaram os primeiros acordes dos Fogo Fogo, a chuva cessou, para não mais voltar durante a primeira manga do Primavera. O concerto inaugural foi igualmente um óptimo exercício para aquecer os músculos através dos ritmos quentes do funaná, preparando-os para as maratonas dos três dias. O colectivo nascido na Casa Independente celebrou com o público o EP lançado no início do mês, “Nha Cutelo”, ao mesmo tempo que não esqueceu as habituais homenagens musicais a temas eternos do referido género musical.

Após estrearmos o palco Seat era hora de cortar a fita do palco NOS Primavera Sound, o principal do certame em questão. A honra coube a Waxahatchee, veículo musical de Katie Crutchfield, que regressava a palcos nacionais após a passagem por Paredes de Coura há 3 anos, período durante o qual acrescentaram “Out in the Storm” à sua discografia. À imagem de grande parte do público, Katie estava entusiasmada com o concerto de Lorde agendado para essa noite, facto que a levou a entoar momentaneamente a capella um dos temas da estrela neo-zelandesa. «Recital Remorse» abriu o concerto que navegou sempre pelas águas do rock alternativo que caracteriza Waxahatchee, variando entre temas mais explosivos e outros mais contidos. A irmã da líder, Allison Crutchfield, alternava entre guitarras e teclas nesses momentos, respectivamente, enquanto a guitarra solo proferia sempre a nota certa para acentuar a emotividade. Tivemos direito a uma rendição acústica de «Sparks Fly», e «La Loose»interpretada a solo por Katie.

De volta ao palco Seat assistimos a um dos concertos dignos de destaque do primeiro dia. Os Twilight Sad, que entraram no cartaz para suprir o cancelamento da australiana Alex Lahey (com muita pena nossa), entregaram-se de corpo e alma desde os instantes inaugurais e não mais largaram a nossa atenção. A presença em palco do vocalista James Graham em muito contribui para isso, não temendo exteriorizar as emoções que as músicas lhe provocam, além daquilo que as letras já nos permitem entender. Enquanto o sol espreitava longiquamente por detrás das nuvens, os escoceses agradeciam por terem direito a uma atmosfera similar àquela que a sua Glasgow natal lhes apresenta normalmente. Canções como «There’s a Girl in the Corner» ou «It Was Never The Same» pontificaram nesta actuação, sempre com os teclados em grande destaque, a preencherem de forma sublime o cenário. Para finalizar esta catarse, uma singela mas brutal homenagem ao seu conterrâneo Scott Hutchinson, vocalista dos Frightened Rabbit que faleceu tragicamente há semanas, por meio de uma versão de «Keep Yourself Warm» que levou o próprio James Graham às lágrimas enquanto mirava o céu.

Os Rhye registam já uma sólida ligação com o nosso país, daí não termos ficado espantados com a quantidade de público que acorreu ao palco NOS Primavera Sound para a sua actuação, mesmo com a forte concorrência de Father John Misty, que arrancaria apenas 20 minutos depois noutra localização. E, mais uma vez, tivemos o prazer de escutar o groove sexy que é transversal à sonoridade do grupo encabeçado pelo sussurrante Milosh. Apesar de apenas termos assistido aos primeiros quatro temas, a amostra foi um óptimo sumário daquilo que os Rhye por norma oferecem.

Abrimos alas até ao palco Seat para nos reencontrarmos com Father John Misty, que desde a sua última visita em Novembro leakou, perdão editou, novo disco: “God’s Favorite Customer”. Acompanhado por nove músicos, incluindo um trio de metais, Josh Tillman debitou uma autêntica colecção de êxitos, pelo meio da qual apresentou um segmento dedicado ao novo álbum, ao qual dedicou quatro temas e uma preciosa publicidade ao melhor estilo TV Shop. Tendo iniciado a actuação bastante comedido, sempre com a guitarra em mãos, foi precisamente na última canção do disco novo, «Hangout at the Gallows» que o showman começou a soltar-se, já livre das cordas da guitarra. Coincidência ou não, a recta final do concerto foi sempre em crescendo, com destaque especial para as explosivas «Holy Shit» e «The Ideal Husband», com a qual rematou mais uma presença em Portugal num formato bem compacto, tirando o máximo partido da costumeira limitação de tempo que os festivais apresentam.

Lorde conquistou a nossa admiração quando, em 2014, brilhou num Rock in Rio Lisboa sempre baseado em nomes mais calejados. Nessa ocasião a neo-zelandesa apresentou um concerto extraordinariamente personalizado e cheio de atitude, algo não muito comum para uma artista ainda com pouca estrada caminhada e com apenas 17 anos. Apesar do êxtase que a plateia demonstrou ao longo do concerto, notando-se claramente que uma vasta facção dos presentes tinha sido atraída por a cabeça de cartaz de Quinta-feira, não ficámos arrebatados desta feita. Ao longo destes quatro anos, período durante o qual nunca mais retornou a Portugal, Lorde tornou-se numa mega-estrela da pop mundial e, infelizmente, denotou notórios tiques dos artistas que populam esse firmamento. A começar desde logo pelo discurso, dirigindo-se sempre ao público com frases feitas e báscias, apesar do tom sempre simpático, ressalve-se. A acompanhá-la teve um grupo de seis dançarinos que foram abrilhantando algumas das quinze canções, equipando todos de branco, o que provocava um bom contraste com a indumentária reluzente da protagonista. Musicalmente falando a performance reflectiu a pop robusta a que Lorde recorreu no seu disco mais recente, “Melodrama”, que contou com reconhecível produção e composição do valoroso Jack Antonoff (cérebro dos fun. e Bleachers). Provavelmente, a forma mais fácil de descrever as diferenças entre ambos os concertos será a vertente distinta entre os seus dois álbuns.

Para culminar a jornada de abertura do NOS Primavera Sound fomos estrear o palco Super Bock onde nos esperava a máquina sempre bem oleada de Moullinex. Acompanhado pelo mestre de cerimónias Ghetthoven, a banda de Luís Clara Gomes bombardeou o seu funk e groove de forma ininterrupta, como já é sua marca registada. Outras vozes convidadas, e até membros da plateia, puderam brilhar nas projecções de vídeo que deram ainda mais cor ao espectáculo.

Texto por Álvaro Graça e fotografia por José Eduardo Real.

Reportagem do segundo dia está aqui.
Reportagem do terceiro dia está aqui.



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