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Nos Primavera Sound | Dia 3 (10.06.2018)

Chegámos até Sábado passando pelos pingos da chuva, mas à terceira foi de vez e os prognósticos de precipitação acertaram em pleno. Nada que amedrontasse os melómanos que continuaram a rumar em barda ao Parque da Cidade, devidamente apetrechados para o pior dos cenários meteorológicos.

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Vagabon foi a primeira actuação a que assistimos no última dia do NOS Primavera Sound, em pleno palco Pitchfork, um dos nomes que poderia ser uma das revelações à partida. E se depender do concerto, terá sido certamente. A voz de Laetitia Tamko é o farol da banda e o pormenor que de imediata agarra os ouvidos à escuta. A sonoridade, ainda que superficialmente simples, contempla diversos detalhes que recheiam deliciosamente as canções, como por exemplo os dedilhados do baixo e da própria guitarra de Laetitia. «Cold Apartment» e «Fear & Force» são temas fortíssimos, os quais a audiência parecia conhecer de antemão, mostrando ser um público atento como aquele que regularmente frequenta o Primavera.

A intensidade da chuva incrementava mas isso não afectou minimamente a prestação dos brasileiros Metá Metá. O cocktail quase sempre irrestível entre o experimentalismo e os ritmos tropicais foi captando a atenção, mesmo de quem se encontrava mais afastado do palco NOS Primavera Sound à procura de protecção da chuva. Lamentavelmente, nem o calor emanado pelas suas composições logrou estancar a pluviosidade mas, ainda assim, valeu.

À hora que os Public Service Broadcasting entraram em cena, no palco Seat, a multidão começava a ambientar-se cada vez mais às condições adversas e, quais anfíbios, aproveitaram até à última gota (literalmente) o espectáculo. Os londrinos vincaram a sua capacidade de oferecer bons concertos, já patenteada em Paredes de Coura em 2041. sempre enriquecidos pelos samples sacados do arquivo público, quer sonoros quer visuais, sempre englobados na temática espacial. O trio foi por diversas ocasiões acompanhado por um trio de metais, conferindo uma maior vertente orgânica ao som maioritariamente electrónico dos PBS, e tornando imparáveis faixas como «Gargarin» ou «Everest».

Chegava a hora do nome maior desta edição do NOS Primavera Sound. O mestre Nick Cave voltava para nos encantar durante hora e meia. Nem a incessante chuva impediu o extraordinário anfiteatro natural de ficar com uma moldura humana de perder de vista. E esta noite trouxe-nos um Nick Cave que durante aquele momento se afastou do céu distante e quis tocar todos quantos conseguiu, numa relação incomparavelmente íntima com os primórdios da sua carreira. Em «Into My Arms», por exemplo, quase pediu desculpa por ter que se afastar até ao piano durante os minutos seguintes. Como se pedisse ao público para o ajudar a lamber as feridas. Acompanhado pelos seus Bad Seeds, com o inseparável Warren Ellis à cabeça (pena que nas maiores explosões sónicas a sua guitarra ou violino acabassem lesadas por um som demasiado estridente), o alinhamento foi bastante equilibrado, com referências às diferentes fases da carreira do génio australiano. Desde o debutante «From Her To Eternity» ao recente «Jesus Alone» que abriu as hostilidades, passando por uma alongada «Weeping Song», com direito a workshop de palmas. A veia sombria de toda a sua discografia faziam-nos pensar que estávamos perante a banda-sonora ideal perante o cenário de um jardim sob um dilúvio nocturno. E o público respeitou todas as sombras e silêncios, como no supracitado «Into My Arms», ajudando no coro a pedido de Nick Cave, ou em «Push The Sky Away», que encerrou o concerto e durante o qual dezenas de pessoas subiram ao palco para uma coreografia improvisada. E, de facto, o ressalta essencialmente desta descida de Nick Cave dos céus até ao Porto é a proximidade que o compositor promove e degluta.

Protegidos da chuva, sob uma estrutura que permitia observar o palco Seat, ainda escutámos algumas das guitarradas que pautam o som sempre cativante de War on Drugs, que definitivamente mereciam melhores condições para espraiar as emoções que populam as suas canções. No entanto, o start/stop contínuo da pluviosidade tornou-se demasiado após tantas horas expostos à excentricidade desta Primavera meteorológica.

Texto por Álvaro Graça e fotografia por José Eduardo Real.

Reportagem do primeiro dia está aqui.
Reportagem do segundo dia está aqui.



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