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“O segredo dos segredos” de Dan Brown

No limiar da consciência

Passados oito anos, uma eternidade para os fãs do britânico Dan Brown, eis que chega mais uma aventura de Robert Langdon, o mais famoso simbologista do universo da ficção contemporânea. Desta vez, o centro da trama é a sempre enigmática e deslumbrante Praga, cenário ideal para um livro recheado de ação, inimigas, códigos e perseguições que misturam arte, ciência, filosofia e religião, num regresso à fórmula que consagrou o autor que tem a arte de transformar, dirão os mais céticos, o improvável ou absurdo em (bom) entretenimento.

Talvez a maior diferença de O segredo dos segredos (Planeta de Livros, 2025) face aos tomos anteriores seja a áurea apaixonada apresentada por Langdon que, desta vez, mergulha num mistério que cruza ciência e espiritualidade, que tem na investigadora Katherine Solomon, sua atual namorada e um dos nomes maiores da do estudo da noética e que surgiu pela primeira vez no universo de Brown em O símbolo perdido, o seu par romântico e alguém com que, por vezes presencialmente, outras não, o leitor é convidado a percorrer Londres, Nova Iorque e, claro, uma Praga quase alquímica, onde o passado medieval parece respirar por entre os corredores de uma modernidade sublinhada a gótico.

No ponto de partida da narrativa está a publicação de uma obra revolucionária, que, como refere o comunicado distribuído pela editora, «cujas explosivas revelações sobre a natureza da consciência humana ameaçam abalar séculos de crenças estabelecidas». Paralelamente, e depois de «um terrível assassínio que provoca o caos, Katherine desaparece sem deixar rasto e o seu manuscrito é destruído. Desesperado por encontrar a mulher que ama, Langdon embarca numa corrida contra o tempo, enquanto é implacavelmente perseguido por uma poderosa organização e uma criatura assustadora saída das mais antigas lendas da cidade».

O resultado é uma viagem pela consciência humana e pela eterna busca da origem da alma, nunca esquecendo a pergunta que muitos gostariam de ver esclarecida: haverá vida depois da morte? E, para embrenhar o leitor, Brown desenha um fio condutor que passa por uma teoria ambiciosa – a de que a mente transcende o corpo – que serve de base de mais um acelerado thriller cinematográfico.

 

 

 

Como habitualmente, o autor de bestsellers como O código da Vinci ou os mais recentes Inferno ou Origem, domina de forma ímpar o jogo do suspense através de capítulos curtos, ganchos milimétricos, descrições (por vezes à beira do limite da saturação e numa lógica wikipediana…) quase arquitetónicas do espaço ou da História e um sentido de urgência que empurra o leitor até à última página.

Para isso muito contribui o cenário de Praga, com as suas catedrais góticas, estruturas singulares, relógios intemporais, parques simbólicos e passagens subterrâneas, cuja aura mística assume-se como uma personagem do livro, por vezes, tão viva quanto os próprios protagonistas.

O único senão, talvez seja o facto de Langdon ter perdido alguma capacidade de surpreender, pautando a sua dinâmica intervenção, qual Tom Cruise em Missão Impossível, entre a erudição, a calma e os sustos de morte, que lhe vai permitindo encontrar a salvação e as respostas ao ritmo dos ponteiros do seu relógio com o Rato Mickey. Por seu lado, Katherine, quase sempre à beira de um ataque de nervos, raramente vai além do perfil da cientista inspirada que explica conceitos em tom de epifania.

Além dos protagonistas, destaque para um editor no limbo, uma embaixada e embaixadora a ferro e fogo, cobaias humanas em nome do progresso científico, e um Golem, personagem mítica nascida no séc. XVI que ganha nova vida neste livro, sendo um vilão de motivações enigmáticas. Todos, ou quase, peões num intrincado puzzle que envolve a CIA e a sua vontade de estar à frente de um mundo cada vez menos pacífico e onde a vigilância é o segredo de ser uma superpotência.

Mas, nas quase 700 páginas deste livro, que somam cerca de 48 horas das vidas dos personagens, há algo mais do que uma mera ficção, sempre inspirada em factos reais como sublinha Dan Brown. Falamos de uma tentativa de colocar o leitor no seio de uma reflexão contemporânea sobre a identidade e os limites do conhecimento científico, e esse é um dos habituais méritos do escritor.

Isto porque, a consciência humana, as vozes interiores e as duplas personalidades, assim como as experiências fora do corpo são apresentadas como elementos de um território ainda em disputa, fora de amarras puramente biológicas ou exclusivamente espirituais, sendo essa uma das marcas mais interessante do romance, com a narrativa a estar bem contextualizada, levando a um importante exercício reflexivo sobre os limites da ética. E o mérito de Dan Brown é que consegue sempre com que se retire algo das suas histórias quando nos leva a olhar o presente, e o futuro, de olhos mais abertos e cientes que tudo, mas tudo pode acontecer. Para tal, basta que a saúde e o coração de Lagndon aguentem.

 

 

 

 



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