“O sétimo homem e outros contos” de Deveney e PMGL
Murakami versão ilustrada
O japonês Haruki Murakami vive num planeta próprio e é isso que torna toda a sua obra numa experiência ímpar, onde realidade se confunde com o onírico através de uma brilhante fusão entre o surreal e o quotidiano.
Essa sensação de vertigem físico-espacial, logo emocional, também está bem patente em O sétimo homem e outros contos (Casa das Letras, 2026), reinterpretação de uma dezena de contos de Murakami, com texto de Deveney e ilustrações e cor por PMGL, que dá outra luz à obra do nipónico, sendo objeto imprescindível para os fãs do autor de livros como Kafka à beira-mar e 1Q84.
Respeitando a assinatura de Murakami, Deveney e PMGL apresentam personagens em suspensão, memórias que não assentam e uma realidade onde há sempre algo ligeiramente “desalinhado”.

Tal como o título indica, o conto O sétimo homem é o core do livro. Trata-se da história de alguém que revisita o trauma de infância ligado a um tufão, onde o medo é assumido como algo que se prolonga no tempo, só ganhando forma quando enfrentado. Nesta versão, as ilustrações, maioritariamente em tonalidades castanhas e verdes, ajudam a materializar esse regresso, quase como se dessem corpo à memória.
Já em Sono, talvez um dos textos mais inquietantes de Murakami, acompanhamos uma mulher que não dorme há 17 noites e entra num estado de vigília contínua que a afasta progressivamente da própria vida. Podendo ser interpretado como um misto de alienação e identidade, a adaptação de Deveney e PMGL reforça a ideia de deslocamento, criando uma sensação de estranheza constante, como se a personagem estivesse sempre fora de ritmo com o mundo.

Em outro dos contos presentes, A menina dos anos, acompanhamos uma jovem que, no dia do seu vigésimo aniversário, atendia às mesas como de costume. Trabalhava sempre às sextas-feiras, mas, se tudo corresse como planeado, nessa noite teria folga. No entanto, um impedimento inesperado levou-a a percorrer uma chuvosa Tóquio quando lhe pedem que entregue o jantar ao proprietário do restaurante, homem recluso e pouco sociável. O inesperado toma lugar em tons pastel, belos e outonais.
Por sua vez, Onde poderei encontrá-lo é mais espartano no que toca aos cromas e navega num mar onde o preto, o branco e os vários cinzentos são bússola para uma viagem em género policial que junta uma morte provocada por um elétrico e uma investigação com revelações mais ou menos inesperadas.

No seu conjunto O sétimo homem e outros contos consegue, à imagem da escrita de Murakami, que as narrativas, agora sob a forma de imagens, funcionem muitas vezes como pausas, outras como extensões do não dito. O objetivo é sugerir interpretações e nunca substituir os contos originais, funcionando como um objeto autónomo à obra do escritor japonês, onde texto e imagem constroem um espaço intermédio, entre o literário e o visual, obrigando a uma leitura mais lenta e atenta.
Mais uma nota para as últimas páginas do livro, onde são partilhados esboços e pesquisas que a dupla criativa e autora desta obre se inspirou.
O resultado é uma notável capacidade de falar sobre solidão, isolamento, memória e desconforto, temas recorrentes na obra de Murakami, sem nunca os fechar completamente. A diferença é que, neste livro, esse desconforto também se vê a diferentes cores.
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