“Tokyo sympathy tower” de Rie Qudan
Entre a empatia e o desconforto moral
Bastante elogiado pela imprensa internacional, chega agora aos escaparates nacionais Tokyo sympathy tower (Casa das Letras, 2026), de Rie Qudan, um romance provocador e capaz de misturar especulação futurista, crítica social e debate filosófico num formato compacto que desafia tanto a narrativa tradicional como as convenções morais.
Publicado originalmente no Japão e vencedor do Prémio Akutagawa, talvez o galardão literário mais prestigiado do país do sol nascente, Tokyo sympathy tower tem lugar num futuro próximo, em Tóquio, onde uma ideia radical sobre justiça social leva à construção de uma torre-prisão de luxo, de seu nome Sympathy Tower, um arranha-céu concebido não para punir, mas para acolher criminosos como “Homo miserabilis” – vítimas das circunstâncias que os conduziram ao crime – num ambiente de conforto e dignidade incomparáveis.
Na linha da frente dessa criação está Sara Makina, arquiteta de renome contratada para conceber esse edifício monumental. À primeira vista, a sua carreira parece perfeita, mas Sara encontra-se profundamente dividida entre o fascínio pela beleza arquitetónica da torre e as questões éticas que a sua função suscita. A sua própria história – marcada por um trauma pessoal de violência que permaneceu socialmente ignorado – complica ainda mais a sua relação com um projeto que pretende celebrar a “simpatia” como princípio civilizacional.
Ao longo da narrativa, Qudan tende a explorar a relação entre (meta)linguagem, identidade e poder que ajuda a contextualizar a realidade subjacente que, embora bem-intencionada, pode “desfocar” conceitos éticos essenciais. Esse foco no papel da linguagem como “produtor de factos” é, aliás, uma das características mais marcantes e originais deste livro, remetendo para um ato meditativo no sentido da direção que as palavras e os discursos podem ter e moldar as perceções de crime, da sua punição e de alguma empatia que pode daí resultar.

Assim, e ao longo das quase 200 páginas de Tokyo sympathy tower, Qudan funde protagonista e ideia central de forma ambígua. Até porque Sara não é uma heroína convencional: é sim uma mulher contraditória, preocupada com estética e lógica, mas também emocionalmente instável e socialmente crítica.
O seu relacionamento com Takt, um homem mais jovem cuja visão tecnocrática do mundo contrasta com o ceticismo de Sara, adiciona outra camada a uma análise geracional e filosófica à obra, com Qudan a intercalar perspetivas – primeiro, Sara; depois de Takt – criando uma fragmentação alicerçada num diálogo complexo que tanto pode aproximar as duas opiniões como afastá-las.
Essa interpretação bicéfala espelha uma intenção de tornar este livro não tanto como uma narrativa psicológica clássica, mas mais um reflexo interpessoal e social onde cada análise confronta o leitor com as próprias convicções sobre justiça, tecnologia e humanidade.
Outros dos aspetos muito associados a este livro é o facto de que a autora tenha assumido que cerca de 5% tenha sido escrito com a ajuda da Inteligência Artificial, integrando essa tecnologia mesmo nas partes em que a protagonista dialoga com um chatbot. Em causa poderá estar a criatividade e/ou a autenticidade da obra, mas em nenhum momento se sente que possa ser posta em causa a integridade da narrativa ou a sua contemporaneidade, ou até que Tokyo Sympathy Tower seja um muito recomendado exercício ficcional que faça repensar o valor de conceitos como “identidade” ou “responsabilidade social” e os limites da empatia.
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