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Os Bem-Amados

As canções de fastio.

Com um ou outro intervalo, Christophe Honoré tem vindo a especializar-se na homenagem à Nouvelle Vague. Esta fórmula, popularizada com “Em Paris”, já revelava alguns sinais de cansaço nas reviravoltas do seguinte “As Canções de Amor”, salvo pelas canções titulares de Alex Beaupain (a lembrar as que Michel Legrand escreveu para Jacques Demy), o belo, nostálgico e sepulcral esqueleto que aguentava o filme. Face a um beco sem saída — bem vistas as coisas, a fórmula, esgotada, já dera muito —, Christophe Honoré resolveu seguir em frente. E, como mandam as leis da física, chocou contra a parede. Ainda assim, não se esperava um objecto tão inane quanto “Os Bem-Amados”.

O novo filme do realizador francês repete as características que fizeram o sucesso dos filmes anteriores (a leveza, os triângulos amorosos, as canções, o à-vontade francês em relação ao sexo), aumentando-lhes a dimensão, incomensuravelmente. Em “Os Bem-Amados” é tudo em grande: os pesos-pesados Catherine Deneuve, Chiara Mastroianni e Milos Formam juntam-se aos repetentes Ludivine Sagnier e Louis Garrel; em vez de uma história, há duas que se espraiam por cinco décadas (e nunca colam uma com a outra); peripécias que nunca mais acabam (mesmo aqueles que se queixam dos filmes parados em que não acontece grande coisa vão desejar que acontecessem menos coisas); canções e mais canções que começam por não arrefecer e acabam a fazer escaldar de irritação. Claro que o resultado é auto-condescendente, uma estopada de todo o tamanho, um mastodonte especialmente balofo (onde é que já vai a leveza?).

O filme até nem começa mal. Sagnier, jovem parisiense que trabalha numa sapataria, rouba uns sapatos caros, experimenta-os, calcorreia as ruas de Paris, feliz da vida. Seguem-se interessantes planos de pés (os únicos verdadeiros momentos de cinema), um biscate como prostituta e um romance com um checoslovaco. Apesar dos irritantes comentários de Chiara Mastroianni ao que se vai passando e colagem a datas históricas (primeiro, a Primavera de Praga, mais tarde, o 11 de Setembro), a coisa só descamba definitivamente quando Sagnier e Radivoje Bukvic saem de cena e entram Deneuve e Forman, como as suas versões mais velhas, e, principalmente, Mastroianni, como sua filha.

Se o remate da história de amor entre pai e mãe é forçado (em sua defesa, pode ser visto como um comentário ao absurdo da vida), a segunda história, a da filha, é particularmente fastidiosa e inconsequente; vai um bocado para todo o lado e mais algum e não tem centro nenhum: Garrel está apaixonado por Mastroianni (têm um caso antigo, assim parece), que, por sua vez, se apaixona pelo americano Paul Schneider, que encontra em Londres (para onde todas as personagens foram mais ou menos porque sim), que afinal é homossexual, mas se calhar é bissexual, e daí talvez não, o certo é que tem SIDA e muitos namorados franceses, provavelmente por estar apaixonado pela francesa… E isto é só o princípio (e, depois do fim, ainda acontece uma série de coisas).

De resto, nem as canções de Alex Beaupain se salvam: as letras pontuam excessivamente a acção, explicando-a para lá do aconselhável; as melodias pouco acrescentam às de “As Canções de Amor”, de que são derivativas. A única curiosidade é ouvir Catherine Deneuve — bastante desaproveitada no filme, parece estar ali só porque é mãe de Chiara Mastroianni e vice-versa — cantar, desta vez, ao contrário dos filmes de Demy, com a própria voz.

Fica a ideia de que “Os Bem-Amados” pretendia dizer alguma coisa sobre o amor, da dificuldade de amar e ser amado, de como a passagem do tempo o afecta, mas, no meio de toda confusão e pompa, deve ter-se esquecido.

Estreia em Portugal dia 29 de Setembro. Um exclusivo dos cinemas MEDEIA.



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