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“Os dias do ruído” de David Machado

Para onde foi o medo?

A pergunta é feita por Laura, a protagonista deste livro, que ficou conhecida no mundo por ter impedido um atentado em Paris ao matar Amar, um terrorista islâmico. Esse momento mudou a sua vida e tornou a antiga jornalista e repórter de guerra numa celebridade depois de escrever um livro onde relata esse momento, esse acontecimento.

Por isso, ficou famosa e agora percorre o planeta a promover a sua história e o seu livro, fama essa que explode nas redes sociais provocando vários debates em torno do radicalismo, do racismo, da xenofobia, do feminismo.

Ainda que muito a contragosto, aquele momento mudou a vida de Laura, transformando-a numa líder para muitos, desde o cidadão anónimo aos radicais de extrema direita, mas também alvo a abater para outros. Essa sensação de perseguição e de perigo contante, inicialmente rejeitada e desvalorizada, muito por culpa da dormência causada pela atração aos holofotes da fama, dá lugar ao pânico. E é esse pânico que faz com que Laura acabe por procurar o único lugar do mundo onde se sente segura: a velha casa dos seus pais, que não visita há 20 anos.

Essa espécie de regresso ao passado, em busca de o isolamento e anonimato, seja ele real ou virtual, vai também servir para lutar contra velhos fantasmas, em especial face a uma conturbada relação familiar onde (re)encontra um pai rude, outrora contrabandista, e distante, e uma mãe a lidar com a demência, entre outros problemas de saúde. É nesse espírito de reclusão autoimposta que Laura pretende dar algum sentido à sua vida, voltar a escrever um livro, desta vez dedicado a várias mulheres heroínas que foi entrevistando, ainda que as ameaças de morte que recebe nas redes sociais se vão tornando cada vez mais um obstáculo à sua criatividade e estabilidade.

É nessa mescla de sentimentos e desafios que navega Os dias do ruído (D. Quixote, 2024), o mais recente livro do autor de Índice Médio de Felicidade, Debaixo da pele ou A educação dos gafanhotos, galardoado com o Prémio União Europeia para a Literatura, um livro marcado por densas camadas emotivas que tornam a narrativa num constante murro no estômago, num abrir de olhos aos perigos do radicalismo, da fama pela fama, da luta das mulheres num mundo que insiste em ser estupidamente machista e mais recentemente palco do regresso dos pensamentos fascistas e nacionais socialistas, o que nos leva a concluir que as pessoas esqueceram o drama vivido há mais ou menos um século e que provocou uma guerra mundial.

Essa complexidade contemporânea é explorada de forma assertiva e pertinente por um David Machado escritor e criador de personagens que ficam na nossa memória e que são as peças que completam um puzzle geral. Neste livro, essas personagens são, por exemplo, Azul, a irmã de Laura que abandonou a casa dos pais por o seu pai não aceitar a sua homossexualidade; Emília, a melhor amiga de Laura, que se refugia no “conforto” de um casamento marcado pela infidelidade do marido, mas que, ainda assim, ajudou-a a apagar as memórias de um abuso que foi vítima na adolescência; Brielle, antiga companheira de aventuras de Laura e que perdeu uma perna num atentado; Liam, ex-companheiro de Laura e pai de Jane, uma jovem rebelde que vê na sua madrasta algo que gostaria de vir a ser; ou os próprios pais de Laura que lutam contra o passar do tempo, a doença, o isolamento, a teimosia, os traumas em forma de feridas que vão cauterizando, a própria vida.

Envolto numa espiral de sentimentos, alguns contraditórios, outros incoerentes e ainda outros emocionalmente “certos”, Os dias do ruído é um extraordinário retrato cru do mundo atual, de uma sociedade que está refém do que se passa nas redes sociais, de gente que procura dar um sentido à vida, de pessoas que não deram pela vida passar ou aceitaram a passagem do tempo, e outros que procuram respirar, viver. David Machado pega em todos eles e conta-nos uma história dividida em três parte e narrada em forma de diário onde se somam “entradas” de três ou quatro linhas ou várias páginas.

E ainda que este livro não dê resposta à pergunta que dá título a este texto – nem faria sentido fazê-lo –, as personagens de Os dias do ruído partilham, à sua maneira, lições de vida, pedaços de existências solitárias ou mais acompanhadas, que nos levam a refletir sobre o que queremos de nós, dos outros, mas, acima de tudo, como ser melhores pessoas, e tirar partido de quem amamos enquanto é tempo. Pois, a vida é finita, ao contrário de livros como este que são eternos.    



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