“Páginas de Melancolia e Contentamento” | António Sousa Homem

“Páginas de Melancolia e Contentamento” | António Sousa Homem

Como ensina o Eclesiastes, não há nada de novo debaixo do sol

Pedro Mexia resume, num brilhante prefácio, que se levássemos as crónicas de António Sousa Homem à letra, tal e qual Bíblia – tanto na passagem de gerações como em importância -, este artigo teria certamente mais de uma mão cheia de erros e de marcas contemporâneas perfeitamente escusadas para um homem que gosta de lembrar que vem dos tempos muito antigos do Titanic.

Para nós, simples mortais que buscam uma felicidade próxima e sem dor, é capaz de nos ultrapassar este orgulho e necessidade de afirmação no que toca ao contentamento de uma pessoa com o passado, sem sentir necessidade de avançar. Muitos poderão cair na tentação de lhe chamar “retrógrado” mas, felizmente, não é essa a sensação que fica ao ler “Páginas de Melancolia e Contentamento” (Bertrand Editora, Lisboa 2013), originalmente publicadas em forma de crónicas no Correio da Manhã e que, mais do que cheirar a antigamente, transpiram a uma terra antiga que evoca memórias, mesmo para quem nasceu lisboeta e alfacinha como eu, talvez de antepassados rurais que trabalharam e lutaram para ter os seus descendentes em frente a um computador, a tomar banho de água quente e a estudar em colégios e universidades. A ter uma boa vida à nossa maneira.

Mas sejamos realistas: António Sousa Homem não nos pede a todos que voltemos à terra para cavar batatas nem que esqueçamos os telemóveis e o Facebook. A sua mensagem é outra, mais sábia, característica de quem tudo observa com “a leveza de um irresponsável”: contemplemos o mundo de agora, pois afinal de contas é perfeitamente possível viver nele sem que o tenhamos de compreender. Claro que não se pode dispensar uma boa análise daquilo que nos rodeia, ou não seria António Sousa Homem um escritor. Mas, apesar desta análise, a doce indiferença com que estas páginas de melancolia se enchem é clara e não pode ser alheia a quem as lê.

É um livro a preto e branco, tal e qual como os olhos que o descrevem. Podemos perceber a melancolia de tudo o que é dito, o saudosismo de um tempo que passou e não vai mais voltar e que, como toda a infância e passado, deixa uma saudade que não pode nunca ser completamente preenchida. Vemo-nos envolvidos numa escrita solene, extremamente concisa e cordial.

A minha geração – quem anda agora por volta dos vinte aninhos – é bem capaz de estranhar a imponência das palavras e tão grande consciência da efemeridade da vida. Pelo menos eu, no auge da minha ignorância, gosto de pensar que sou eterna, e muito estranho quando leio argumentos sérios que o contradizem. Aceito as palavras do Doutor Homem como as dos meus sábios avós, porque os dizeres populares de respeitar os mais velhos e aprender com eles serão sempre muito certos, e eu não sou ninguém para os contrariar. Acima de tudo aspiro a um pouco deste aceitamento e satisfação suave que me faz lembrar Fernando Pessoa e o seu Ricardo Reis estóico e apático.

Talvez com a idade eu me aperceba que há algumas coisas que realmente não posso mudar, apesar da minha vontade heróica de participar na mudança do mundo. Sou fruto do meu tempo histórico e tudo, um dia, vai ser diferente, se é que já não começa a ser. Talvez o progresso e a modernidade sejam ideais longínquos que só se podem observar no fim desta história da Humanidade da qual fazemos parte, cada um de nós. Peço desde já aqui ao último homem que me mande um e-mail para contar como acaba isto tudo afinal. Eu prometo que vou ser capaz de aceitar.



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